os livros de fevereiro

livros lidos em fevereiro 2021

Fevereiro é um mês mais curto, e algo confuso. E desta vez foi ainda mais incerto, com o confinamento a apertar-se e prolongar-se. Pessoalmente foi também um mês de mudança e evolução e em que alguns projetos pessoais de vida começaram finalmente a definir-se. No meio do trabalho e vida caótica tradicional houve (como sempre, e felizmente) tempo para ler. E foi um mês de boas leituras que estou ansiosa por partilhar.

Norwegian Wood – Haruki Murakami

Norwegian Wood é para muitos a obra que consagrou Murakami. É um livro de ficção realista, sem os elementos mágicos que caracterizam outras obras muito conhecidas como Kafka On The Shore. Conta-nos a história de  Tōru, que aos 18 anos sai de casa dos pais para ir estudar teatro em Tóquio. Ao reencontrar Naoko, uma velha amiga, é obrigado a confrontar as memórias do suícidio do melhor amigo Kizuki, anos antes. O livro é melancólico e marcado por tragédia e eventos de vida difíceis de presenciar. A música é um tema tão central como a saúde mental, e ao acompanharmos a vida e desenvolvimento pessoal de Tōru acabamos por aprender tanto sobre ele como sobre nós. Este foi o meu livro favorito do ano até agora e consagrou Murakami no meu coração – estou ansiosa por continuar a explorar a (felizmente vasta) obra do autor.

What happens when people open their hearts?

They get better

Vicious – V.E.Schwab

Dois meses num ano e dois livros de V.E.Schwab? Parece que sim! Este foi o livro do mês de Fevereiro do clube de leitura que tenho com a minha amiga Maria Monteiro. É um livro de fantasia e realismo mágico, e explora a ideia de anti-heróis – pessoas com superpoderes (os Extraordinários) mas que não são necessariamente bons. Neste mundo, certas pessoas ao passar por experiências de quase morte regressam à vida com novas habilidades que refletem a forma como quase morreram. É um livro com várias timelines simultâneas e que se foca principalmente na história de Victor e Eli, em tempos melhores amigos, agora inimigos mortais. Apesar de o livro ter sido divertido, não me convenceu totalmente. Não pretendo ler a sequela, e não sinto que a história ou as personagens me tenham marcado por aí além. Ainda assim, a escrita de V.E.Schwab continua a impressionar-me e suspeito que vai ser presença repetida nestes resumos mensais.

Maybe You Should Talk to Somone – Lori Gottlieb

Este livro é simplesmente genial. É a memoir de Lori Gottliedb, uma psicóloga norte-americana, que nos conta a sua história entrelaçada com as histórias de alguns pacientes específicos. Lori é também ela uma paciente, e a relação que constrói com o seu psicólogo e a forma como reflete sobre a sua própria prática foi muito interessante de ler. As histórias e consultas que nos reconta, e a forma como desmonta os mecanismos mentais de cada paciente enriqueceu imenso a minha própria relação com a saúde mental. Sou muito adepta de terapia e de um dia-a-dia que promove a saúde e bem estar mental, e este livro superou todas as minhas expectativas.

We all have a deep yearning to understand ourselves and be understood.

The Right Swipe- Alisha Rai

Depois da experiência de leitura pesada que foi o último livro, senti a vontade de ler um romance leve e divertido, daqueles que se lê num fim de semana a apanhar sol na varanda, e escolhi “The Right Swipe”. No entanto, apesar de ter sido divertido e engraçado, este romance não é propriamente leve – é daqueles livros muito bons a equilibrar momentos cheesy ou cliché com momentos pesados e profundos, muito parecido ao que “Beach House” havia feito. E, deixem que vos diga, não fiquei nadinha chateada! Neste livro conhecemos Rhiannon Hunter, criadora e CEO de Crush, uma app de encontros semelhante ao Tinder mas com uma visão mais focada na mulher. Matchmaker é um icónico site concorrente, e o sobrinho da CEO (e agora cara da marca) é Samson, um homem com quem Rhiannon teve um encontro de uma noite meses antes e que acabou por lhe dar ghost quando era suposto terem saído juntos novamente. O reencontro forçado numa convenção de aplicações de encontros é o catalisador para este livro turbulento e divertido, daqueles que gostaríamos de ver representado no grande ecrã.

a música de fevereiro 🎼

Muitas vezes descubro músicas ou artistas aleatórios de que gosto e não sei onde os pôr para não me esquecer. No final de 2020 decidi começar a fazer playlists mensais – um baú desorganizado de todas as músicas que me chegaram aos ouvidos e ficaram na cabeça por uma outra razão. São playlists aleatórias, sem princípio nem fim, que fazem zero sentido tanto em termos de género, continuidade e musicalidade. Mas têm resultado.

Este mês ficou marcado pelo Festival da Canção, um evento que é muito apreciado na minha casa desde sempre e que vemos em família.

Quando volto atrás e ouço a playlist do início ao fim recordo-me dos momentos e memórias que acabei por associar a cada música, e a sua aleatoriedade torna-se ainda mais deliciosa – é um espelho do meu nonesense.

Por isso, aqui fica a playlist das músicas que marcaram o meu (belo) mês de fevereiro:

playlist de fevereiro 20201 – spotify – @ritaprata1

Monday morning coffee

There are some regrets at the end of every line. Especially when the end was camouflaged and you only notice it in hindsight, looking back. When we feel that we have all the time in the world, the line goes on indefinitely. Why worry for the far-away future when for the time being all we have is the now?

I cannot avoid ever having any regrets. Maybe in 4 years, when I’m (hopefully) done with my Ph.D., I will look back and regret half the choices I made. Or maybe it will all turn out perfectly fine and I will be at peace. Either way, this is pure fantasy – nothing ever “turns out” okay just like that. Everything is constantly built and rebuilt, designed and redeveloped, ever-changing and evolving. Honesty, if future Rira regrets what present me is doing right now, well then, fuck her. She clearly has no idea what’s actually going on.

We are all storytellers. Even the people who don’t read or enjoy music or movies. Even those who remain quiet at the dinner table and avoid sharing their lives. We are all tellers and re-tellers of our own stories and events. Nothing ever happens exactly as we remember it – even less as we told it. Events are clouded by our spirits, beliefs, and wants; objectivity is a pure illusion.

Even in our deepest meditative state, we can lie to ourselves – we do lie. What we cannot do is tell the truth. Frankly, because there is no “the truth”. Every single thing is filtered by our experience of simply being human.

It is 8 a.m on a Monday morning and I am writing this as I sip my coffee and prepare for the day ahead. Right now, I have my own version of my day mapped out in my brain. I know my schedule, the tasks that need to get done, the conversations I want to engage in, and even what I’m having for lunch. I know the timeline my day is supposed to follow, according to me. But is that to say I actually know my day at all? Does that mean reality will humbly follow the step-by-step guide I left for it? Not at all. A plan is simply that -a want, a will it, a might. Only the was tells the real story. And, perhaps, not even that, for if I am the one imprinting on it, who’s to say it really was like that?

BookBuyingTales #1 – SegundaMão

Quando fiz 18 anos fui a Londres pela primeira vez – como apaixonada pela leitura que era passei grande parte da viagem a explorar livrarias e bibliotecas, muitas delas com impressionantes secções de livros usados e em segunda-mão. Quando em 2017 fiz Erasmus em Estocolmo o mesmo aconteceu. Nesse verão encontrei também uma livraria britânica no algarve com uma estante recheada de livros em busca de uma nova casa.

O conceito intrigava-me: para além de serem mais baratos e das vantagens óbvias a nível ambiental, eram livros com vida e uma história para além da contada nas páginas. Mesmo os pequenos “defeitos” característicos de livros já manuseados me intrigavam. Não sou a leitora mais cuidadosa do mundo, escrevo e sublinho e marco os meus livros à vontade, pelo que não me faz confusão nenhuma adquirir livros já de espinha quebrada, literalmente.

Assim, iniciei a minha busca por locais onde adquirir estas preciosidades. Confesso que a nível de lojas físicas ainda não encontrei (no Porto) algo que se equiparasse à seleção disponível em Londres e Estocolmo, apesar de muito ocasionalmente se encontrar uma gema perdida por esses Alfarrabistas fora. Para além disso, com a situação pandémica que marcou o último ano das nossas vidas, virei-me naturalmente para o online.

Assim, e sem mais demoras, aqui ficam os quatro sítios onde já adquiri livros em segunda mão e que recomendo:

1 – TradeStories

https://tradestories.pt/home

O Trade Stories é uma plataforma recente mas que conta já com centenas de utilizadores e livros comprados e vendidos. Criada por uma jovem portuguesa que sentia que a compra e venda de livros em segunda mão em portugal era muito desorganizada, permite ao utilizador colocar livros à venda, listar livros como procurados e vender os seus próprios livros. Com apenas uma foto e um preenchimento rápido de alguns dados (título, autor, estado do livro, idioma etc), qualquer pessoa pode vender ou trocar os seus livros. Já comprei e vendi (@ritis1996) alguns títulos através da plataforma e é neste momento (de longe) o meu site favorito para o efeito.

2 – Awesome Books

https://www.awesomebooks.com/

O AwesomeBooks é um site britânico que doa parte dos lucros conseguidos na venda de livros e discos em segunda mão à caridade. O seu algoritmo de pesquisa deixa muito a desejar e o site é bastante lento, mas com paciência a recompensa vale definitivamente a pena. A seleção de livros é quase infinita e os preços são genuinamente muito baixos. Apesar de a encomenda demorar pelo menos 15 dias a chegar, já encomendei várias caixinhas de livros daqui e nunca fiquei desiludida. Comprei, por exemplo, toda a saga do Percy Jackson por pouco mais de 10 euros, sendo que novos cada um destes livros custa mais do que paguei pelo conjunto. Como os portes ainda são consideráveis (cerca de 3 euros) prefiro acumular livros em wishlist e encomendar apenas quando tenho um carrinho bem recheado. O site apresenta também a hipótese de compra de livros novos, mas nunca o fiz.

3- World of Books

O Worlkd of Books é outro site britânico do qual já não encomendo há algum tempo mas que tem também uma grande seleção de títulos disponíveis. Deixaram temporariamente de enviar para Portugal devido ao COVID, mas agora parece que retomaram os envios (isto varia muito, pelo que vale sempre a pena verificar os países para onde enviam no momento). Os preços são comparáveis aos praticados no Awesome Books mas parece ter uma seleção mais recente e curada. O site também funciona melhor, e o algoritmo de pesquisa e listas de sugestões está bastante bem construído. O envio é igualmente demorado. Apesar de já não o usar há algum tempo este artigo relembrou-me o porquê de o ter usado tanto em tempos e algo me diz que a minha próxima encomenda será daqui.

4 – OLX, Custojusto, Ebay etc etc

E pronto, chegamos ao que já toda a gente sabe mas que nunca é de mais relembrar – aquelas plataformas de compra e venda em segunda mão em que há literalmente de tudo, livros incluídos. Já comprei alguns livros pelo OLX, embora tenha abandonado um pouco esta forma de compra e venda com o surgimento do Trade Stories. Ainda assim, há muita gente que continua a listar os livros apenas nestes sites pelo que quando há um título muito específico que procuram vale sempre a pena a visita.

E com isto termino a minha pequena grande lista de sites para compra e venda de livros em segunda mão. Espero explorar mais lojas físicas quando for possível e trazer um artigo semelhante mas focado nas livrarias existentes pela minha cidade (ou, quiçá, país). Boas compras e boas leituras!

Poema da Semana #12

Valentine, John Fuller

The things about you I appreciate
May seem indelicate:
I’d like to find you in the shower
And chase the soap for half an hour.
I’d like to have you in my power
And see your eyes dilate.
I’d like to have your back to scour
And other parts to lubricate.
Sometimes I feel it is my fate
To chase you screaming up a tower
Or make you cower
By asking you to differentiate
Nietzsche from Schopenhauer.
I’d like successfully to guess your weight
And win you at a fête.
I’d like to offer you a flower.

I like the hair upon your shoulders,
Falling like water over boulders.
I like the shoulders too: they are essential.
Your collar-bones have great potential
(I’d like your particulars in folders
Marked Confidential).

I like your cheeks, I like your nose,
I like the way your lips disclose
The neat arrangement of your teeth
(Half above and half beneath)
In rows.

I like your eyes, I like their fringes.
The way they focus on me gives me twinges.
Your upper arms drive me berserk.
I like the way your elbows work.
On hinges …

I like your wrists, I like your glands,
I like the fingers on your hands.
I’d like to teach them how to count,
And certain things we might exchange,
Something familiar for something strange.
I’d like to give you just the right amount
And get some change.

I like it when you tilt your cheek up.
I like the way you nod and hold a teacup.
I like your legs when you unwind them.
Even in trousers I don’t mind them.
I like each softly-moulded kneecap.

I like the little crease behind them.
I’d always know, without a recap,
Where to find them.

I like the sculpture of your ears.
I like the way your profile disappears
Whenever you decide to turn and face me.
I’d like to cross two hemispheres
And have you chase me.
I’d like to smuggle you across frontiers
Or sail with you at night into Tangiers.
I’d like you to embrace me.

I’d like to see you ironing your skirt
And cancelling other dates.
I’d like to button up your shirt.
I like the way your chest inflates.
I’d like to soothe you when you’re hurt
Or frightened senseless by invertebrates.

I’d like you even if you were malign
And had a yen for sudden homicide.
I’d let you put insecticide
Into my wine.

I’d even like you if you were Bride
Of Frankenstein
Or something ghoulish out of Mamoulian’s
Jekyll and Hyde.
I’d even like you as my Julian
Of Norwich or Cathleen ni Houlihan.
How melodramatic
If you were something muttering in attics
Like Mrs Rochester or a student of Boolean
Mathematics.

You are the end of self-abuse.
You are the eternal feminine.
I’d like to find a good excuse
To call on you and find you in.
I’d like to put my hand beneath your chin,
And see you grin.
I’d like to taste your Charlotte Russe,
I’d like to feel my lips upon your skin
I’d like to make you reproduce.

I’d like you in my confidence.
I’d like to be your second look.
I’d like to let you try the French Defence
And mate you with my rook.
I’d like to be your preference
And hence
I’d like to be around when you unhook.
I’d like to be your only audience,
The final name in your appointment book,
Your future tense.

NeedleTales #1 – o top azul

Em novembro do ano passado decidi aproveitar o confinamento para aprender uma nova skill – crochet e tricot. A minha mãe, pessoa mais prendada que conheço, sempre fez imensas peças de roupa para ela e para nós em crochet e tricot, para além de ser mágica a bordar, costurar e fazer alterações ao vestuário no geral. Depois de 24 anos a vê-la dominar o mundo da moda caseira decidi aventurar-me e pedi-lhe que me ensinasse.

Comecei por crochet e pelos pontos mais simples e consegui fazer três cachecóis até ao fim de dezembro que ofereci de prenda de Natal à minha mãe e avós. Pelo meio experimenter o tricot (que se faz com duas agulhas em vez de uma), que por ser mais complexo está mais tremido.

Terminados os cachecóis senti que precisava de um novo desafio. Sempre adorei os tops de crochet que povoam o pinterest e até algumas lojas, e decidi que era isso que queria fazer. Sou muito impulsiva e em retrospetiva devia ter planeado melhor o meu projeto – encontrado um padrão online com medidas e números de pontos específicos, delineado um plano passo a passo, ponderado melhor o tamanho da linha e da agulha etc Pois bem, deixei os planeamentos para a próxima e atirei-me de cabeça. Na verdade nada disto teria corrido bem se a minha mãe não estivesse sempre lá para me tirar as dúvidas e desembaraçar os nós literais.

Comprei 5 novelos de algodão azul turquesa e uma agulha bem mais fina do que a que usava com lã e meti mãos à obra. Comecei pelos triângulos da parte da frente de cima do top, por achar que iriam decidir tudo o resto. Confesso que quase desisti aqui – demorei demasiado tempo a conseguir que os triângulos ficassem iguais e com as mesmas dimensões, mas aprendi muito no processo.

Terminados os triângulos comecei o grande retângulo que seria a parte da frente – ainda sem os coser um ao outro fiz uma fila abaixo dos dois que os juntava e continuei até ter o comprimento desejado. De seguida fiz um retângulo semelhante para a parte de trás. Cosi a a parte da frente à de trás com linha de costura azul e prolonguei as alças até chegarem atrás. Depois de tudo cosido e montado fiz rebordos em todo o perímetro num ponto mais delicado para rematar e reforçar a estrutura.

E tadaaaa, mês e meio depois de começar terminei o meu primeiro top de crochet. Adorei a experiência e vou de certeza repetir com outras cores, formas e padrões. Adquiri bastante know-how experimental e estou entusiasmada para iniciar novos projetos.

E agora, sem mais demoras, aqui fica o produto final – o meu primeiro top de crochet azul turquesa:

amor – um poema e uma música.

Tinha outro post inteiramente diferente preparado para hoje mas o desafio que Magda Cruz do Ponto Final, Parágrafo, um dos meus podcasts preferidos, lançou no instagram inspirou-me a dedicar algumas linhas a este dia tão moderno e clássico ao mesmo tempo.

Hoje é dia 14 de fevereiro, dia de são Valentim, ou dia dos namorados – o dia do amor. A Magda desafiou os ouvintes do podcast a sugerir os seus poemas ou textos de amor favoritos. A minha mente foi de imediato para “A Química”, de José Saramago, poema que mereceu já uma partilha exclusiva no blog. Sublimemos, amor. Uma declaração romântica alusiva à sublimação, a passagem da matéria do estado sólido para o estado gasoso, qualquer coisa como ascender a uma nova dimensão em que existem apenas duas pessoas – Saramago e o seu amor, com quem sublima.

Nesse sentido, a Magda introduziu-me ao “Poema de amor” do Pedro Mexia, que passo a transcrever:

Alprazolam, domipramina, noradrenalina,

monoamina, seretonina, fluoxetina.

Pedro Mexia

A Alprazolam e a Domipramina são dois fármacos tipicamente usados para tratar distúrbios e sintomas de pânico e ansiedade, e para mim representam duas realidades opostas mas igualmente válidas do que o amor faz ao ser humano. Ao mesmo tempo que nos causa alguma ansiedade (aquele medo de ser ou não correspondido, as borboletas no estômago de nervosismo perante a infinidade de cenários que se apresentam quando abrimos o nosso coração a alguém), pode também ser a cura para as ansiedades do dia-a-dia. Partilhar as nossas inquietudes e derrotas com alguém que nos ama e quer o nosso bem é, por vezes, o melhor fármaco possível para minimizar estes sentimentos negativos, ou pelo menos para os tolerar melhor.

A Noradrenalina e a Serotonina são monoaminas, neurotransmissores relacionados com o humor, a ansiedade, o nosso estado de espírito, o sono, a alimentação etc em resumo – afectam tudo. Conhecida popularmente como hormona da felicidade, a serotonina é frequentemente responsável por distúrbios depressivos quando algo falha na sua produção ou nos receptores naturais que possuímos. E é precisamente nesses casos que entra em acção a Fluoxetina, um fármaco antidepressivo. Também aqui entendo a dualidade do que é o amor – ao mesmo tempo que leva à produção de hormonas e neurotransmissores responsáveis pela felicidade, é também causador de desregulação de todo o nosso organismo. O amor é capaz de tirar sono, afectar o apetite ou induzir-nos a passar uma tarde na cozinha a fazer brownies ou panquecas para alguém de quem gostamos; tira-nos o ar ao mesmo tempo que nos faz respirar melhor. Quando corre bem, exacerba todos os bons sentimentos e felicidades que experienciamos. Quando corre mal e o coração se parte ou magoa é capaz de nos enterrar em sentimentos depressivos comparáveis aos causados pela ausência da tão já referida hormona da felicidade.

O amor não pode ser (nem deve) ser reduzido a reações químicas ou neuronais – é um mistério superior à capacidade explanatória da ciência, e por mim pode continuar assim.

Agora num tom menos poético e mais cru, tal como o amor frequentemente também é, queria partilhar a música “Qualquer Coisa” dos Time for T, que tem uma vibe absolutamente tranquila e boa onda. Escrita durante esta estranha pandemia que vivemos, transmite muitas das coisas simples que tomávamos por garantidas e de que agora sentimos falta, como “Aquelas tardes de cerveja tornam-se em noites de macieira” ou ainda “Aquele cinema no estendal, o nosso tímido carnaval“. Uma ode ao dia-a-dia que este vírus nos roubou e que também é amor, e às coisas mundanas que mal podemos esperar por rever e re-reclamar como nossas.

Qualquer coisa no vinho, qualquer coisa no ar
Qualquer coisa no mel, qualquer coisa no marAquele cheirinho eucalipto, aquela mordida à la mosquito
Aquele drogado educado, aquele rico malcriado
Aqueles turistas perdidos bebem vinho verde felizes
Aqueles artistas servem à mesa, até os forretas deixam gorjetaOh amanhã é mais um dia que vai tornar-se ontem
Oh amanhã é mais um dia que vai tornar-se ontem
Qualquer coisa no vinho, qualquer coisa no ar
Qualquer coisa no mel, qualquer coisa no marAquele pênalti anulado, aquele carro mal estacionado
O portal das finanças, um labirinto sem esperanças
Aquele café da manhã, aquela vizinha de sutiã
Aquelas tardes de cerveja tornam-se em noites de macieiraOh amanhã é mais um dia que vai tornar-se ontem
Oh amanhã é mais um dia que vai tornar-se ontem
Qualquer coisa no vinho, qualquer coisa no ar
Qualquer coisa no mel, qualquer coisa no marAquela nuvem de perfume das meninas em cardume
Que mergulham no cais sodré, sem nunca molhar os pés
Aquele cinema no estendal, o nosso tímido carnaval
Aquele cheiro a sardinhas e haxixe, os santos devem estar felizesOh amanhã é mais um dia que vai tornar-se ontem
Oh amanhã é mais um dia que vai tornar-se ontem
Qualquer coisa no vinho, qualquer coisa no ar
Qualquer coisa no mel, qualquer coisa no marAquela caça do gambuzino, segue-me que eu sei o caminho
Muitos anos a virar frangos, toma lá morangos
Aquele amor em sprint, aquela pilula do dia seguinteAquele cheirinho de carvão, torna o medroso em rei leão
Os artistas de hoje em dia sobrevivem na pandemia
Toma lá pra te entreteres é só putas e recibos verdes

os livros de janeiro

“If I had my way, I would remove January from the calendar altogether and have an extra July instead.”

Roald Dahl

Janeiro é para muitos conhecido pelo blue month – blue no sentido de melancólico e triste. Outros vêm janeiro como o mês do recomeçar e renascer, uma nova página forçada pelo calendário cheia de entusiasmo pelo desconhecido. Acho que me enquadro simultaneamente nestas duas visões.

Em janeiro o meu doutoramento arrancou em força, e muitas áreas da minha vida sofreram adaptações resultantes da situação pandémica que vivemos. Tudo isto afectou a minha leitura. Ainda assim, faço um balanço positivo qb dos livros que li este mês.

Comecei o mês com The Hating Game, da Sally Thorne, um aclamado romance de escritório em que duas personagens começam inimigas e acabam (spoiler alert mas nem por isso) apaixonadas. Foi um livro divertido e leve que me acompanhou nos primeiros dias do ano e recomendo!

De seguida li The Invisible Life of Addie LaRue, da V. E. Schwab. Esta autora é um nome sonante na fantasia jovem adulta mas nunca tinha lido nada dela. Este livro conta-nos a história de Addie, uma jovem de 23 anos nascida em França no século XVII que se sente presa a uma vida mundana. No dia do seu suposto casamento arranjado reza aos deuses para que a livrem da vida aborrecida a que se sente condenada. As suas preces são atendidas por Luc, um deus da escuridão que lhe oferece algo mágivo em troca da sua alma. A oferta de Luc permite a Addie atingir a imortalidade, mas condena-a a uma vida de esquecimento – ninguém que se cruza com a rapariga se lembra dela, e Addie percorre o mundo como um fantasma de si mesma com uma memória inquebrável. O livro está extremamente bem escrito, as personagens são realistas e apaixonantes e dei por mim ansiosa por explorar o restante reportório de V.E. Schwab. O sentimento mágico da leitura assemelhou-se ao transmitido por The Night Circus, que li no ano passado.

It was messy. It was hard. It was wonderful, and strange, and frightening, and fragile – so fragile it hurt – and it was worth every single moment.

The Invisible Life of Addie LaRue, V.E.Schwab

Seguiu-se So Sad Today, um livro de ensaios da escritora Melisa Broder, autora da conta de twitter com o mesmo nome. É um livro de crónicas altamente pessoais sobre as experiências de Melissa com relações, encontros sexuais, drogas e álcool, saúde mental, entre outros temas. Os ensaios são curtos e diretos, sem grandes floreados, e a escrita assemelha-se grandemente a uma conversa de café, o que me desiludiu bastante. Apesar de me ter relacionado com alguns dos temas e reflexões feitos, no geral não gostei muito do livro nem da superficialidade com que as coisas foram abordadas.

Todos os meses leio um livro em comum com a minha amiga Maria Monteiro, atualmente a fazer PhD na Irlanda, e no último fim de semana do mês fazemos uma vídeo chamada para debater o livro. Este mês lemos The Song of Achilles, da Madeline Miller, pois ambas gostamos de mitologia grega e o livro é muito conhecido e bem recomendado. Apesar de ser evidente que a escrita de Madeline é cativante, confesso que não me apaixonei de todo pela narrativa, e que me senti frequentemente aborrecida. O livro reconta a lenda de Achilles e da Guerra de Troia baseando-se na sua relação com Patroclus, que a história praticamente esqueceu. Apesar de ter gostado muito da personagem de Patroclus e da sua forma de nos conduzir pela história, senti que o livro se arrastou demasiado em alguns momentos. Ainda assim, considero que foi uma boa escolha e irei com certeza ler Circe, o outro livro de mitologia da autora.

No man is more worth than another, wherever he is from.

The Song of Achilles, Madeline Miller

E, por fim, no último fim de semana do mês li Bichos, de Miguel Torga, inserido no “Uma Dúzia de Livros”, o clube do livro mensal da Rita da Nova. Escrevi um artigo inteiro dedicado a este livro (aqui), pelo que não me alongo mais, dizendo apenas isto – demorei demasiado tempo a pegar neste livro e a ler Miguel Torga no geral e estou muito feliz por ter corrigido este erro. Pretendo ler um dos diários dele muito em breve.

E pronto, foi este o meu mês de leituras! Fevereiro vai começar com o Norwegian Wood do Murakami, estou muito entusiasmada, e cá estarei daqui a um mês para vos contar o que achei!

Uma Dúzia de Livros Janeiro: Bichos, Miguel Torga (Rita da Nova)

A Rita da Nova é autora de um dos meus blogues portugueses favoritos (aqui) sobre livros, comida, viagens, gatos, plantas etc Gosto imenso da forma como escreve e interage com os leitores do blogue e passei o ano de 2020 com vontade de me juntar ao seu clube do livro mensal – Uma Dúzia de Livros.

O conceito do clube é muito interessante – em vez de toda a gente ler e debater o mesmo livro, a Rita lança mensalmente um tema para influenciar uma escolha literária de cada pessoa, com base na sua própria experiência e preferência. O tema deste mês era “um livro que toda a gente já leu”. Adorei a ideia, juntei-me ao grupo do goodreads do desafio e usei o último fim de semana do mês para ler Bichos, do Miguel Torga.

Bichos é um livro de contos sobre animais com nomes, personalidades e histórias de gente a sério. Miguel Torga é um dos autores portugueses mais conceituados e lidos de todos os tempos, e nunca ter lido nada do autor era definitivamente uma grande falha.

O livro é composto por um prefácio genial e 14 contos muito diferentes mas igualmente deliciosos e cativantes. Os capítulos do burro, do galo e do gato foram os meus favoritos, e dei por mim angustiada durante o capítulo do touro, que me remete para a barbaridade que são as touradas. É um livro divertido e emotivo que se lê muito bem e muito rápido e uma ótima companhia para um fim de semana chuvoso de janeiro.

Ignorância desculpável, aliás. A gente entende pouco do semelhante. Cada um de nós é um enigma, que a maior parte das vezes fica por decifrar.

Bichos, Miguel Torga

Fico muito feliz por ter finalmente pegado neste livro, e estou muito agradecida à Rita pelo desafio. Em fevereiro o tema é “um livro fora da tua zona de conforto”. Ainda não decidi o que vou ler mas vou definitivamente continuar a participar!