Os Livros de Agosto – Ficção

Agosto foi um mês extremamente produtivo em termos de leituras – 13 livros (o número do azar) depois, termino o mês tendo concluído o meu desafio de 50 livros para este ano. Assim, decidi separar os livros do mês em dois posts diferentes – os de ficção descreverei aqui, e os restantes serão explorados num outro post. Ordenei acidentalmente esta lista de livro favorito para menos favorito do mês, mas acho que todos eles têm potencial para trazer algo de bom a quem os quiser ler.

Anxious People, Frederik Backman

“So it needs saying from the outset that it’s always very easy to declare that other people are idiots, but only if you forget how idiotically difficult being human is.”

A 4 meses do fim do ano atrevo-me a afirmar que encontrei um dos membros do meu top de ficção de 2021. Este foi o meu primeiro livro de Fredrik Backman, autor de A Man Called Ove e Beartown, e certamente não será o último. É daquelas histórias que vale a pena ler sabendo tão pouco quanto possível, pelo que vos deixo com uma simplificação da premissa – um assalto a um banco sem dinheiro, um grupo de estranhos a visitar um apartamento que está à venda, uma psicóloga, um homem com uma cabeça de coelho, dois polícias. Um grupo de estranhos entrelaçados pelas ansiedades inerentes à vida adulta, e um narrador tão sarcástico como perspicaz. Ingredientes que dão origem a uma narrativa comovente que prende da primeira à última página.

GHOSTS, Dolly Alderton

Maybe friendship is being the guardian of another person’s hope. Leave it with me and I’ll look after it for a while if it feels too heavy for now.

Ghosts é o primeiro trabalho de ficção de Dolly Alderton, autora de “Everything I know about Love“, uma das minhas memoirs favoritas de 2020. As minhas expectativas para este livro eram elevadas, talvez em demasia – apesar de não me ter sentido desiludida, parte de mim sabe que esperava mais. A história de Nina, que nos é contada na primeira pessoa, começa no dia do seu trigésimo primeiro aniversário, em 2018. Recentemente solteira depois de uma relação de sete anos e extretamente bem posicionada na sua carreira como autora (à semelhança de Dolly, a escritora do livro), Nina decide explorar o mundo das aplicações de encontros, e acaba por se deparar com uma das práticas mais crueis do mundo de dating moderno – ghosting. Gostei muito da construção da narrativa, ainda que a tenha achado algo previsível a certo ponto, e das personagens. Para além dos temas da vida amorosa de Nina, as relações com amigas e família e até o ex-namorado são exploradas de forma emotiva, crua e credível, e foram estes os aspectos que mais me prenderam. Acima de tudo, este livro deixou-me entusiasmada pelo futuro da carreira de Dolly Alderton, que conquistou o seu lugar na minha lista de auto-buy aythors.

Death in her hands, ottessa Moshfegh

“Life was persistent. There it was, every day. Each morning it woke me up. It was loud and brash. A bully. A lounge singer in a garish sequin dress. A runaway truck. A jackhammer. A brush fire. A canker sore. Death was different. It was tender, a mystery.”

Death in Her Hands, da mesma autora do muito aclamado My Year of Rest and Relaxation, é uma narrativa meditativa que segue a história de Vesta, um mulher de 70 anos que vive sozinha numa vila recatada. Após a morte do marido, Vesta adopta um cão, Charlie, e muda-se para uma casa isolada, estabelecendo uma rotina pacata e simples que gira à volta dos seus passeios matinais e de fim-de-tarde pela floresta. Num desses passeios encontra um bilhete misterioso com a mensagem “O nome dela era Magda. Nunca vão descobrir quem a matou. Não fui eu. Aqui está o seu corpo”. Incapaz de encontrar o corpo ou outras pistas, Vesta deixa-se envolver pelo mistério de forma imersiva e obsessiva, criando toda uma narrativa de investigação criminal em nome próprio inconsequente no mundo físico. Passei grande parte deste livro confusa, incapaz de distinguir o que era real e o que se passava apenas na cabeça de Vesta – e sinto que era precisamente esse o objectivo da autora. Apesar de adorar o modo de escrita, achei a narrativa aborrecida e arrastada em certos momentos, e se tivesse de escolher diria que My Year of Rest and Relaxation é definitivamente o meu livro favorito da Otessa até agora.

Days of distraction, alexandra chang

“Feels like I have a thousand paper cuts at the back of my head”

Days of Distraction surgiu na minha busca por livros semelhantes a Normal People, de Sally Rooney. Seguimos as reflexões e vivências da narradora na primeira pessoa, enquanto esta navega a sua existência como jovem jornalista asio-americana. A narrativa lenta e meditativa promove um ambiente melancólico e introspectivo e, apesar de normalmente gostar deste ritmo literário, confesso que senti várias vezes que este livro era demasiado longo e repetitivo. Disconectei-me durante grande parte do processo de leitura, e terminei o livro com uma expiração de alívio por ter chegado ao fim. Não acho que seja um mau livro, mas claramente não é para mim.

os livros de julho 📚

mesmo sem férias, o verão faz-me sempre ler mais. julho foi um mês de estudo e trabalho, mas também de muitas leituras, que ajudaram a lidar com o frenético dia-a-dia e algumas surpresas para as quais não estava totalmente preparada. apesar do elevado número de livros lidos, encaixam facilmente em duas categorias: ficção e romance. tenho sentido que em meses complicados gravito facilmente para estes géneros, talvez porque proporcionam um maior escape do mundo real.

FICÇÃO

Hear the Wind Sing, Haruki Murakami

O primeiro livro de Murakami é, segundo o próprio, mais uma novela do que um romance. Hear the Wint Sing encabeça uma trilogia introspectiva e melancólica, um estilo que acabou por definir o autor. Senti que esta obra foi uma espécie de ensaio acidental de Norwegian Wood, tanto pelas semelhanças no enredo e personagens, como pelo tom taciturno e sentimentos impressos no leitor.

Conta-nos a história de um estudante universitário a passar as férias de verão na sua terra natal, que passa os dias a beber, fumar e melancoliar (o legado de Murakami na língua portuguesa devia ser a criação deste verbo) com o melhor amigo num bar e que é terrível a comunicar com todas as mulheres com quem interage na vida.

Terminei este livro durante o pequeno-almoço da primeira segunda-feira do mês de julho e carreguei comigo um espírito de negrume durante todo o dia. Aliás, foi este livro que despoletou o binge reading de romance que descrevo abaixo. Ainda assim, como com todos os Murakami que li até agora, adorei a experiência e quero muito continuar a explorar a obra deste génio da tristeza.

Such a Fun Age, Kiley Reid

Este livro pertence à lista de must reads de ficção de quase toda a gente que conheço – e foi por isso que demorei tanto a pegar nele. Apesar de não me ter impressionado tanto como esperava, gostei bastante, e concordo que é uma narrativa extremamente interessante. Neste livro conhecemos Emira, uma jovem negra que trabalha part-time como babysitter de uma família branca de classe alta. Numa noite em que leva a criança ao supermercado, Emira é acusada de ter raptado a bebé da família. Seguem-se uma sequência de eventos e reflexões que desafiam o que é racismo e discriminação, e o que significa ser verdadeiramente um aliado “da causa”. É um livro curto em que acontece muita coisa, por vezes demasiado superficial, mas que recomendo.

Transcendent Kingdom, Yaa Gyasi

Na onda de Such a Fun Age, Transcendent Kingdom lida também com temas de discriminação, aliado a temas de religião e ciência. Conta-nos a história de Gifty, oriunda do Gana mas criada nos Estados Unidos, da sua mãe profundamente religiosa e (eventualmente) deprimida, e do seu irmão Nana, que sofreu uma overdose de heroína na adolescência. A história alterna entre o passado de Gifty e o presente – estudante de Doutoramento de neurociências no último ano.

É um livro muito difícil de ler que me fez chorar várias vezes e questionar muitas das coisas que tomei como certas nos últimos anos. É também um testemunho extremamente interessante da história e cultura do Gana que me ensinou muito. Foi por vezes difícil relemebrar que é um trabalho de ficção e não uma memoir, de tão crua e honesta é a escrita.

Romance

The Soulmate Equation, Christina Lauren

Oh. Meu. Deus. Este livro é perfeito. Uma frase- é um romance que a certo ponto menciona o Research Gate. Sim, a rede social dos cientistas em que podemos acompanhar a vida profissional dos nossos colegas. Este foi o meu primeiro romance do duo Christina e Lauren, e superou as minhas expectativas. Conta-nos a história de Jess Davis, uma estaticista mãe solteira, e de River Pena, PhD em genética prestes a tornar-se milionário devido à sua empresa de que emparelha pessoas com base em compatibilidade genética.

Sendo cientista tenho sempre receio de ler livros com premissas destas – se a ciência não for bem explorada fico desiludida, perco-me nos detalhes e sou incapaz de seguir a história. Mas este livro impressionou-me – não é demasiado ambicioso, mas tudo que o afirma é legítimo, possível e credível. Melhor, as personagens são realistas e empáticas, e apesar de seguir um plot típico do género e previsível, é exatamente o que promete ser – um ótimo equílibrio entre romance, drama, casualidade do dia-a-dia e spice.

Find Me, André Aciman

hum, nem sei por onde começar. Find Me foi-me apresentado como a sequela de Call Me By Your Name, o que me deixou confusa durante cerca de 70 % do livro porque – spoiler alert – o encontro de Elio e Oliver só acontece mesmo no fim. Aliás, a primeira metade do livro segue o pai de Elio e o seu próprio romance. Depois, passamos algum tempo com o Elio e o outro quase-amor da vida dele, e finalmente experienciamos o reencontro das duas personagens principais da história original. Para ser sincera, gostei muito de seguir o romance do pai de Elio, e a escrita de Andrè Aciman é tão apaixonante e romanticizada como sempre, pelo que posso perdoar a confusão. Por outro lado, senti que foi um pouco mais do mesmo, e questiono-me se a fórmula não estará algo esgotada, pelo menos para mim.

The Off-Campus Series, Elle Kennedy

Ao longo dos últimso meses obriguei-me a parar com as desculpas e explicações complexas para o porquê de ter começado a ler romances. Mas estes livros não são romances normais. São quase fanfiction publicada e bem escrita, um twilight moderno mas com jogadores de hóquei em vez de vampiros e histórias realistas em vez de lobisomens apaixonados por recém-nascidos. E talvez isto soe negativo ou crítico, mas não é todo essa a minha intenção. Cada um destes livros foca-se num jovem jogador de hóquei universitário diferente, e nas raparigas por quem eles se apaixonam. No geral, a história é sempre muito semelhante, e no particular é igualmente muito viciante. São os livros perfeitos para desligar totalmente a cabeça e relaxar, e confesso que me ajudaram em vários dos momento menos bons deste mês. Por isso, afirmo sem vergonha – em julho li quatro romances eróticos sobre jogadores de hóquei, gostei, recomendo, e pretendo continuar a explorar o género.

Os Livros de Abril e Maio

Abril e Maio foram caóticos e preenchidos. Consequentemente, acabei por ler menos do que o costume, e que decidi juntar os dois meses num só post. Focando na imagem resumo das leituras recentes, talvez reparem que os livros na fila de cima estão propositadamente representados de forma mais discreta. O Expectation da Anna Hope e o Exciting Times da Naoise Dolan serão protagonistas de um futuro post sobre (spoiler alert) livros do mesmo género de Normal People, da já famosa Sally Rooney. Os outros dois, primeiros volumes da saga Vampire Academy, que marcou a minha adolescência, não precisam de apresentação – foram leituras de conforto, distrações bem vindas e apreciadas que não exigiam muito de mim nem emocional nem intelectualmente mas permitiram abstração do mundo real. Ainda assim, se gostarem do género de fantasia young adult e de histórias de vampiros e se, por milagre, ainda não tiverem devorado a saga, recomendo.

E agora sim, vamos ao que importa, as três estrelas dos dois últimos meses.

It’s Not About the Burqa

Conheci este livro no TradeStories e cativou-me rapidamente – não estava na minha lista, mas rapidamente percebi que o queria ler. Consiste em 17 essays de diferentes mulheres muçulmanas sobre a sua vida, feminismo, relação com o Islão e religião, carreira, família, identidade sexual e de género, entre outros temas. Todos os ensaios são poderosos e impactantes, e termino este livro muito mais rica e consciente do que comecei. Ouvir histórias e testemunhos em nome e voz próprias é insubstituível, e a única forma de realmente compreendermos uma temática ou problemática. Acima de tudo, este livro fez-me confrontar vários pré-conceitos (não negativos nem pejorativos, apenas mal informados) que tinha em relação ao Islão e à diferença entre o que é cultural e o que é religioso. Refleti também muito sobre o meu feminismo e o quão inclusivo e inter-sectional este é, ou não, e vou de certeza continuar a procurar ler, pensar, refletir e aprender.

“When a woman is ‘too much’, she is essentially uncontrollable and unashamed. That makes her dangerous.”

An Absolutely Remarkable Time

Hank Green tem muitas designações – Químico, Youtuber, irmão do John Green, etc. Quando revelou que iria lançar um livro de ficção científica fiquei algo cética, e demorei a aventurar-me neste volume, apesar de ter várias recomendações positivas de pessoas cuja opinião valorizo bastante. Mas depois de encontrar uma edição de bolso em promoção na Fnac fiquei sem desculpas – e ainda bem. A nossa personagem principal, April May, é uma designer recém-licenciada e presa numa rotina de trabalho que não a satisfaz. Numa noite, ao voltar a casa, depara-se com uma estátua gigante de um robot estranho a que chama Carl. Liga ao melhor amigo e juntos gravam um vlog para o youtube. No dia seguinte, ao acordar, descobre que o vídeo viralizou e que há uma hipótese de o Carl ser resultado de atividade alienígena. E mais não digo – vale muito a pena descobrir tudo ao mesmo ritmo que a April o faz. Foi uma aventura divertida e intrigante e fiquei curiosa para ler a sequela!

“What is reality except for the things that people universally experience the same way?”

How To Fail at Flirting

tw: relações tóxicas/abusivas

Este livro encaixa perfeitamente no meu género de romance favorito – um bom equilíbrio entre momentos leves e cheesy e temáticas mais sérias e realistas. How to fail at flirting conta-nos a história de Naya, uma professora universitária que vive uma vida resguardada e isolada, consequência de uma relação abusiva passada. Cansados de a ver focada somente no trabalho, os melhores amigos convencem-na a criar uma lista de coisas entusiasmantes a fazer numa noite. Dias depois, Naya acaba sozinha num bar a uma terça-feira à noite e conhece Jake, que estava na cidade temporariamente para ir a um casamento. O que começa como um quase-one night stand acaba por evoluir e obrigar Naya a confrontar muitos dos seus traumas e fantasmas. Senti-me envolvida na história e empática para com as personagens, e recomendo a quem gostar de romances realistas!

E voilá! Um mês de leituras mais aleatórias e leves, mas que foram exatamente o que precisava para equilibrar o caos instalado no resto do dia-a-dia. Sinto que junho seguirá a mesma tendência e estou mais do que okay com isso!

Na Minha Estante #1

Os livros que tenho na minha estante de… Clássicos

A organização das minhas estantes segue um esquema que faz muito sentido para mim – cada prateleira contém um género literário. O que faz com que um livro seja classificado como determinado género ? Me, Myself and I. Na verdade é complicado explicar o meu sistema, mas faz todo o sentido para mim e traz-me muita paz e felicidade.

Uma das prateleiras mais consensuais é aquela de que venho falar hoje, a prateleira dos Clássicos, que mistura livros em português (traduzidos) e inglês que atravessam gerações e fronteiras.

É evidente a minha paixão por Jane Austen e Louisa May Alcott, e a minha inspiração no currículo literário americano (de onde saem To Kill a Mockingbird, Frankenstein, The Scarlet Letter, The Great Gatsby e The Catcher in the Rye).

Há muitos clássicos, como The Picture of Dorian Grey e Wuthering Heights, que li e adorei mas não pertencem (ainda) à minha coleção. Dos que aqui estão, destaco Little Women, o meu livro favorito de todos os tempos, e Brave New World, que mudou muito a minha perspetiva sobre o poder da ciência e livre arbítrio.

A adornar a prateleira estão muitas velas (retiradas para a fotografia) e um mini busto de Luís de Camões que comprei numa Feira da Ladra no 5º ano – não sei se ele concordaria com as minhas escolhas de clássicos, e provavelmente ficaria confuso com a falta de livros dele, mas sinto que complementa a aesthetic da prateleira muito bem.

P.s. – os clássicos da literatura portuguesa estão noutra estante. prometo que também leio em português.

BookBuyingTales#2 – JAN/MAR

livros comprados entre janeiro e março de 2021

Eu tenho muitos livros.

Não há forma de contornar esta realidade – estou convencida de que comprar e coleccionar livros é todo um hobbie à parte do prazer de efectivamente os ler. Gosto de olhar para as minhas estantes, de as reorganizar e reconstruir, de sentir a ligação com cada um dos volumes nas prateleiras.

Para além disto, desde que comecei também a ler ebooks no Ipad o universo de livros ao meu dispor aumentou ainda mais, literalmente até ao infinito. Anda assim, e apesar de estar a gostar de ler no digital, o bichinho de comprar livros físicos não foi a lado nenhum.

E por isso, decidi partilhar convosco os livros que comprei neste primeiro trimeste do ano, de janeiro a março:

BookDepository

O BookDepository fez uma promoção IRRESÍSTIVEL em janeiro dos livrinhos clássicos e essenciais da Penguin, e eu decidi investir em alguns dos que estão na minha lista infinita. Gosto muito destas coleções, são uma boa forma de explorar autores e ideias.

Em fevereiro fiz pre-order de “Act your Age, Eve Brown” da Talia Hibbert, o terceiro volume da saga das irmãs Brown. No ano passado li “Get a Life, Chloe Brown” e “Take a Hint, Dani Brown” e adorei, e estou ansiosa por ler este último volume, que muitos dizem ser o melhor da série!

TradeStories

Não é segredo nenhum que eu adoooooooro o TradeStories , uma plataforma portuguesa de venda e compra de livros em segunda mão (escrevi sobre livros em segunda mão aqui), e este mês tive não só a sorte de vender alguns dos meus livros mas a sorte ainda maior de encontrar alguns livros que queria mesmo muuuuuito a preços incríveis. Já li um deles (Livros de Março) e estou ansiosa por pegar nos outros!

os livros de março 📚

📖 The Opposite of Loneliness: Essays and Stories, Marina Keegan

Esta colecção de crónicas e contos póstuma celebra a vida de Marina Keegan, uma jovem licenciada de Yale que perdeu a vida num trágico acidente de automóvel na semana em que acabou o curso. A sua família, professores e amigos decidiram publicar esta colectânea que reúne os melhores trabalhos de Marina ao longo da sua licenciatura. Gostei de algumas das histórias, e sente-se que a voz de Marina era única, irreverente, e cheia de vontade de ser ouvida. Ainda assim, é impossível não sentir que não estamos perante um produto acabado, o que torna toda a situação ainda mais trágica. É uma pena para o mundo literário que não tenhamos o privilégio de ver a voz de Mariana crescer e evoluir. Devemos, então, apreciar este volume pelo que é – pela promessa e vida que contém, e pela lembrança de que nada é garantido e que, infelizmente, muitas coisas acabam ainda antes de terem começado.

📖 Radio Silence, Alice Oseman

Alice Oseman é um dos grandes nomes internacionais do género Young Adult, e Radio Silence é provavelmente o seu livro mais conhecido. Conta-nos a história de Francis, uma jovem britânica a terminar o secundário, muito dedicada à escola e às notas e a entrar na faculdade. Frances sente-se sempre deslocada e incompreendida, como se houvesse uma “Frances na escola” e uma “Frances real”. Quando descobre que o autor do seu podcast favorito é o seu vizinho da frente e irmão gémeo da sua ex-melhor amiga desaparecida há mais de um ano, a vida de Frances muda radicalmente. Este livro é espetacular – mesmo. através de personagens reais e diversificadas conta-nos uma história das ansiedades de terminar o secundário e começar a faculdade, da pressão académica desmedida, das relações de amizade, românticas e até familiares que tanto nos constroem como destroem. Li-o num dia porque simplesmente não conseguia parar, e todos os meus receios de não me conseguir relacionar com o livro por estar já numa fase de vida totalmente diferente foram em vão. Mal posso esperar por ler mais livros de Oseman!

📖 Atomic Habits, James Clear

Eu sei, eu seeeei – já toda a gente leu este livro. E por isso mesmo, por ter sido extremamente popular e recomendado nos últimos anos, eu fui teimosa e demorei a pegar nele. Decidi ouvi-lo como um audiobook, companhia enquanto cozinhava e tratava das tarefas domésticas diárias, e gostei muito deste registo. E, na verdade, acho que todo o hype é justificado – James Clear apresenta uma visão extremamente fundamentada sobre o que são os nossos hábitos e como os podemos construir (e destruir), com estratégias simples de compreender e implementar. Apesar de o livro não me ter impactado ao ponto de me levar a realizar formalmente os exercícios que sugere, tenho sentido que o que aprendi afecta muitas das decisões que agora tomo no meu dia-a-dia. Acho que interiorizei muito do que foi transmitido e que teve um impacto positivo em mim. Recomendo!

📖 The 7 Deaths of Evelyn Hardcastle, Stuart Turton

Wow, por onde começar. Este livro é uma escape room literária. É um livro da Agatha Christie em ácidos. É um knives out melhor construído. É uma aventura constante – não me lembro da última vez que tirei tantos apontamentos num livro. Havia um grande mistério para resolver e Stuart Turton faz um trabalho incrível a dar-nos elementos suficientes para acreditarmos que vamos ser capazes de o solucionar – que vamos ser capazes de chegar lá antes mesmo de o livro chegar. Não quero dizer nada sobre o plot, porque tudo o que disser só vai estragar. Apesar de não ter adorado o final dado à narrativa, o livro está tão bem construído e foi tão genuinamente divertido (apesar de algo creepy, também) que continuo a sentir que adorei. Foi uma aventura!

📖 The Ex Talk, Rachel Lynn Solomon

Depois da aventura que foi o livro anterior, senti que precisava de algo mais leve e divertido para acabar o mês bem disposta – e já sabemos o que leio quando me sinto assim, certo? Um romance! Desta vez o escolhido foi o mais recente livro de Rachel Lynn Solomon, que nos conta a história de Shay e Dominic, que trabalham numa rádio pública e se detestam mas são coagidos pelo chefe a fazer um podcast em que fingem ter tido uma relação de três meses que terminou. Adorei as personagens principais e a narrativa foi muito divertida, apesar de pouco credível. Não foi um romance life changing nem nada que se parece, mas foi o que eu precisava – divertido, steamy qb, e cheio de clichés de comédias românticas que fazem bem à alma.

os livros de janeiro

“If I had my way, I would remove January from the calendar altogether and have an extra July instead.”

Roald Dahl

Janeiro é para muitos conhecido pelo blue month – blue no sentido de melancólico e triste. Outros vêm janeiro como o mês do recomeçar e renascer, uma nova página forçada pelo calendário cheia de entusiasmo pelo desconhecido. Acho que me enquadro simultaneamente nestas duas visões.

Em janeiro o meu doutoramento arrancou em força, e muitas áreas da minha vida sofreram adaptações resultantes da situação pandémica que vivemos. Tudo isto afectou a minha leitura. Ainda assim, faço um balanço positivo qb dos livros que li este mês.

Comecei o mês com The Hating Game, da Sally Thorne, um aclamado romance de escritório em que duas personagens começam inimigas e acabam (spoiler alert mas nem por isso) apaixonadas. Foi um livro divertido e leve que me acompanhou nos primeiros dias do ano e recomendo!

De seguida li The Invisible Life of Addie LaRue, da V. E. Schwab. Esta autora é um nome sonante na fantasia jovem adulta mas nunca tinha lido nada dela. Este livro conta-nos a história de Addie, uma jovem de 23 anos nascida em França no século XVII que se sente presa a uma vida mundana. No dia do seu suposto casamento arranjado reza aos deuses para que a livrem da vida aborrecida a que se sente condenada. As suas preces são atendidas por Luc, um deus da escuridão que lhe oferece algo mágivo em troca da sua alma. A oferta de Luc permite a Addie atingir a imortalidade, mas condena-a a uma vida de esquecimento – ninguém que se cruza com a rapariga se lembra dela, e Addie percorre o mundo como um fantasma de si mesma com uma memória inquebrável. O livro está extremamente bem escrito, as personagens são realistas e apaixonantes e dei por mim ansiosa por explorar o restante reportório de V.E. Schwab. O sentimento mágico da leitura assemelhou-se ao transmitido por The Night Circus, que li no ano passado.

It was messy. It was hard. It was wonderful, and strange, and frightening, and fragile – so fragile it hurt – and it was worth every single moment.

The Invisible Life of Addie LaRue, V.E.Schwab

Seguiu-se So Sad Today, um livro de ensaios da escritora Melisa Broder, autora da conta de twitter com o mesmo nome. É um livro de crónicas altamente pessoais sobre as experiências de Melissa com relações, encontros sexuais, drogas e álcool, saúde mental, entre outros temas. Os ensaios são curtos e diretos, sem grandes floreados, e a escrita assemelha-se grandemente a uma conversa de café, o que me desiludiu bastante. Apesar de me ter relacionado com alguns dos temas e reflexões feitos, no geral não gostei muito do livro nem da superficialidade com que as coisas foram abordadas.

Todos os meses leio um livro em comum com a minha amiga Maria Monteiro, atualmente a fazer PhD na Irlanda, e no último fim de semana do mês fazemos uma vídeo chamada para debater o livro. Este mês lemos The Song of Achilles, da Madeline Miller, pois ambas gostamos de mitologia grega e o livro é muito conhecido e bem recomendado. Apesar de ser evidente que a escrita de Madeline é cativante, confesso que não me apaixonei de todo pela narrativa, e que me senti frequentemente aborrecida. O livro reconta a lenda de Achilles e da Guerra de Troia baseando-se na sua relação com Patroclus, que a história praticamente esqueceu. Apesar de ter gostado muito da personagem de Patroclus e da sua forma de nos conduzir pela história, senti que o livro se arrastou demasiado em alguns momentos. Ainda assim, considero que foi uma boa escolha e irei com certeza ler Circe, o outro livro de mitologia da autora.

No man is more worth than another, wherever he is from.

The Song of Achilles, Madeline Miller

E, por fim, no último fim de semana do mês li Bichos, de Miguel Torga, inserido no “Uma Dúzia de Livros”, o clube do livro mensal da Rita da Nova. Escrevi um artigo inteiro dedicado a este livro (aqui), pelo que não me alongo mais, dizendo apenas isto – demorei demasiado tempo a pegar neste livro e a ler Miguel Torga no geral e estou muito feliz por ter corrigido este erro. Pretendo ler um dos diários dele muito em breve.

E pronto, foi este o meu mês de leituras! Fevereiro vai começar com o Norwegian Wood do Murakami, estou muito entusiasmada, e cá estarei daqui a um mês para vos contar o que achei!

Uma Dúzia de Livros Janeiro: Bichos, Miguel Torga (Rita da Nova)

A Rita da Nova é autora de um dos meus blogues portugueses favoritos (aqui) sobre livros, comida, viagens, gatos, plantas etc Gosto imenso da forma como escreve e interage com os leitores do blogue e passei o ano de 2020 com vontade de me juntar ao seu clube do livro mensal – Uma Dúzia de Livros.

O conceito do clube é muito interessante – em vez de toda a gente ler e debater o mesmo livro, a Rita lança mensalmente um tema para influenciar uma escolha literária de cada pessoa, com base na sua própria experiência e preferência. O tema deste mês era “um livro que toda a gente já leu”. Adorei a ideia, juntei-me ao grupo do goodreads do desafio e usei o último fim de semana do mês para ler Bichos, do Miguel Torga.

Bichos é um livro de contos sobre animais com nomes, personalidades e histórias de gente a sério. Miguel Torga é um dos autores portugueses mais conceituados e lidos de todos os tempos, e nunca ter lido nada do autor era definitivamente uma grande falha.

O livro é composto por um prefácio genial e 14 contos muito diferentes mas igualmente deliciosos e cativantes. Os capítulos do burro, do galo e do gato foram os meus favoritos, e dei por mim angustiada durante o capítulo do touro, que me remete para a barbaridade que são as touradas. É um livro divertido e emotivo que se lê muito bem e muito rápido e uma ótima companhia para um fim de semana chuvoso de janeiro.

Ignorância desculpável, aliás. A gente entende pouco do semelhante. Cada um de nós é um enigma, que a maior parte das vezes fica por decifrar.

Bichos, Miguel Torga

Fico muito feliz por ter finalmente pegado neste livro, e estou muito agradecida à Rita pelo desafio. Em fevereiro o tema é “um livro fora da tua zona de conforto”. Ainda não decidi o que vou ler mas vou definitivamente continuar a participar!

BEST OF 2020 – Não Ficção

Ao longo deste ano apercebi-me de que colecciono livros de Não Ficção a uma velocidade muito superior àquela a que os leio. Isto deve-se principalmente a muitos dos livros que me atraem se relacionarem com temas pesados nos quais passo já grande parte do meu dia-a-dia a pensar, principalmente Ciência e Direitos Humanos. Assim, e sendo para mim a leitura uma atividade principalmente de lazer e escapismo do mundo real, acabam por ficar esquecidos. Apercebi-me, no entanto, de que há livros de não ficção mais “leves” e igualmente eficazes como escape – as biografias e memoirs. E foi precisamente sobre este subgénero que me debrucei mais este ano, e que culminou nesta lista. Em 2021 espero combater a preguiça de ignorar todos os “pesados” da não ficção que me ocupam as prateleiras, mas por agora fiquem com as minhas memoirs favoritas do ano.

1º – Everything I Know About Love

Autor: Dolly Alderton
Lido: Dezembro 2020

Dolly Alderton é jornalista, escritora, colunista do Sunday Times e (acima de tudo) hilariante. Esta memoir é um retrato da sua vida desde a escola básica até chegar aos 30, com todo o crescimento pessoal, histórias embaraçosas e corações partidos que isso acarreta. Com um perfeito equilíbrio entre momentos leves/engraçados e tópicos pesados/dolorosos, à semelhança da vida real, Dolly conseguiu um retrato fidedigno, relacionável e importante da vida de uma millenial no século XXI.

Destaque ainda para a forma importante como relata os seus problemas de saúde mental e a procura de ajuda profissional.

“I am always half in life, half in a fantastical version of it in my head.”

2º – Lab Girl

Autor: Hope Jahren
Lido: Abril 2020

“Lab Girl – A story of trees, science and love” é a memoir de Hope Jahren, uma reconhecida investigadora e professora universitária de Paleobiologia. Segundo a própria, é um livro sobre “trabalho e amor, e sobre as montanhas que se podem mover quando estas duas coisas se juntam.” Estando eu a iniciar o meu PhD em Biomedicina e tendo aspirações de seguir uma carreira académica, este livro foi muito importante – um testemunho de resiliência, trabalho árduo e, acima de tudo, amor pela ciência, que me encontrou precisamente no momento certo.

Review completa: https://naspantufasdarita.fciencias.com/2020/06/30/lab-girl-by-hope-jahren/

Science has taught me that everything is more complicated than we first assume, and that being able to drive happiness from discovery is a recipe for a beautiful life.

3º – This is Going to Hurt

Autor: Adam Kay
Lido: Dezembro 2020

Este é certamente um dos livros mais badalados do ano – esteve nos tops e nas mesinhas de cabeceira de toda a gente o ano todo, e talvez por isso tenha resistido à sua leitura. Mas em dezembro decidi finalmente pegar-lhe e todo o hype fez finalmente sentido. Adam Kay, ex-médio da NHS e agora comediante, compilou os seus diários de quando era um junior doctor a avançar na carreira como obstetra e ginecologista.

As entradas em forma de diário são curtas e diretas, as explicações de termos e conceitos médicos acessíveis, e o tom é humanista e carregado de humor e crítica social.

Num ano em que os profissionais de saúde se destacaram (ainda mais), as críticas que Adam faz ao sistema de saúde, aos horários e condições dos profissionais e a tudo o que envolve a carreira médica são da mais alta importância. Se procuram um livro informativo, intrigante e engraçado que vos prenda do início ao fim então “This is Goin to Hurt” é perfeito.

“I notice that every patient on the ward has a pulse of 60 recorded in their observation chart so I surreptitiously inspect the healthcare assistant’s measurement technique. He feels the patient’s pulse, looks at his watch and meticulously counts the number of seconds per minute.”

Menção Honrosa: Notes on a Nervous Planet, Matt Haig (lido Outubro 2020)

BEST OF 2020 – Romance

Este foi o ano em que me aventurei mais no romance, e fiz uma descoberta incrível – não é tudo Nicholas Sparks! Sem desrespeito para quem gosta, ainda bem que existe, simplesmente não é para mim. Estão a ver aquelas comédias românticas perfeitas para um domingo à tarde debaixo de uma manta a comer gelado? Ou aqueles romances tão poéticos e reais que nos dão sempre vontade de virar a vida ao contrário? Há livros assim!! E eu tive a sorte de ler alguns deles… Aqui ficam os meus favoritos.

1º – Writers and Lovers

Autor: Lilly King
Lido: Agosto 2020

Classificar este livro como Romance é uma decisão pessoal – oficialmente é ficção literária, mas o blog é meu por isso fica aqui. Gostei tanto deste livro que até é difícil explicar o porquê – é um livro sobre livros, um dos meus temas favoritos. Conta-nos a história de Casey, aspirante a escritora que trabalha como empregada de mesa há 5 anos para se sustentar enquanto tenta escrever a obra prima da vida dela.

“It’s strange, to not be the youngest kind of adult anymore”

Chocada pela súbita morte da mãe, Casey sente-se mais perdida do que nunca e incapaz de cumprir os seus sonhos, ao mesmo tempo que vê todos os amigos escritores que tem e conhece a serem publicados. Na sua jornada para ultrapassar a morte da mãe e completar finalmente o seu livro envolve-se com dois escritores muito diferentes mas igualmente fascinantes, que moldam a sua forma de pensar, escrever e agir.

A história é mundana e realista, as pessoas e as relações são tão credíveis que poderiam ser os nossos vizinhos do lado, e foi parcialmente por isso que gostei tanto. Para além disto, a escrita de Lily King é incrivelmente cativante e ritmada, e frequentemente poética. Sempre que me lembro desta obra fico com vontade de a reler. Possivelmente o meu livro favorito do ano!

“It’s a particular kind of pleasure, of intimacy, loving a book with someone.”

2º – Beach Read

Autor: Emily Henry
Lido: Agosto 2020

Outro romance sobre livros e escritores? Yes, Please! Dois autores rivais e muito diferentes (ela, romance; ele, ficção literária) acabam vizinhos por um verão numa vila pitoresca.

A lidar com a morte do pai e o fim da sua relação de longa duração, January sente-se incapaz de escrever sobre o amor. Preso no seu próprio bloqueio literário, Augustus está ainda mais maldisposto do que o costume. Num segundo de loucura, os dois decidem trocar de papéis – January vai escrever um livro triste e dramático, Gus vai escrever um romance. E o resto, é (literalmente) história…

“Again and again he told me I wasn’t myself. But he was wrong. I was the same me I’d always been. I’d just stopped trying to glow in the dark for him, or anyone else.”

3º – Take a Hint, Dani Brown

Autor: Talia Hibbert
Lido: Dezembro 2020

Este livro foi DELICIOSO! Confesso que arrancou alguns giggles juvenis e me aqueceu a alma. Dani Brown é uma estudante de doutoramento e aspirante a professora univeritária que prioritiza o trabalho e a família acima de tudo. Por essas razões, está convencida de que não tem tempo nem capacidade para ter uma relação, e foge de situações sérias ou com carga emocional a sete pés.

Zafir é um ex-jogador de rugby com um aspeto de durão mas que adora romances e o seu projeto de voluntariado dedicada a ensinar inteligência emocional a jovens rapazes. Um par improvável com objetivos e visões do amor e relações muito diferentes, mas que apesar de tudo arranjam maneira de encaixar, nos vários sentidos da palavra… Divertido, leve, emocionante e cativante, um must read absoluto.

“If something keeps you human when pressure makes you feel like a volcano, hold onto that thing by whatever means necessary.”