Feira do Livro 2020

O fim de Agosto traz um dos meus eventos favoritos do ano – A Feira do Livro do Porto. Num ano tão atípico e com tantas desilusões como tem sido 2020, a realização da Feira do Livro trouxe-me ainda mais felicidade do que em outros anos. Desde que me lembro nunca perdi uma edição, e é já uma tradição de família passarmos um ou dois dias a explorar as banquinhas da feira.

Palácio de Cristal // Agosto 2020

A Feira abriu ontem (28 de Agosto) e estará aberta até 13 de Setembro, nos jardins do Palácio de Cristal, com o tema “Alegria para o fim do mundo”. Com lotação controlada e limitada, stands de álcool-gel espalhados pelo recinto e obrigatoriedade no uso de máscara, senti-me perfeitamente segura o tempo todo. E a feira não desiludiu.

Saí de casa com uma lista de três livros a comprar, já sabendo que dificilmente teria a força de vontade para me restringir a tal. E assim foi. Como se costuma dizer, “perdi a cabeça”, mas ganhei livros que estou ansiosa por ler, pelo que não me arrependo. Assim, sem mais demoras, fiquem com as minhas comprinhas neste ano na feira.

A primeira banca a que fui, da Poetria (https://www.poetria.pt/) foi de longe a minha favorita. Super bem organizada, com uma variedade de livros de poesia e teatro invejável, e funcionários extremamente simpáticos e prestáveis, foi onde encontrei mais alegria. Aqui comprei quatro livros de poesia:
– “Os Poemas Possíveis”, de José Saramago – confesso que até ao momento não sabia que Saramago tinha um livro de poesia, mas estou felicíssima por o ter encontrado. Este é talvez o livro que mais vontade tenho de ler, sinto que não vai chegar ao fim de Setembro sem a espinha quebrada (metaforicamente, claro!)
– “Penguin’s Poems for Love” – as colectâneas de poesia da Penguin são espetaculares, e uma forma incrível e económica de conhecer novos autores e explorar temas específicos. Já tenho companhia para as noites em que só me apetece abrir um rosé e ler poesia de amor!
– “The Complete Poems”, de Emily Dickinson – andava há meses à procura de uma colectânea da Emily Dickinson que valesse a pena, e na Poetria encontrei-a finalmente. A um preço incrível (16 euros!!!), de elevada qualidade e com mais de 700 poemas, tenho finalmente a edição definitiva que tanto cobiçava.

O Afonso Cruz é um dos meus autores favoritos, e a pouco e pouco tenho procurado coleccionar as suas obras, que tanto me entretêm. Encontrei esta edição limitada d’”As Flores” que combina com a minha edição de “Jesus Cristo Bebia Cerveja” e não resisti a trazê-la comigo. Ainda na Poetria, foi-me recomendado o “paz traz paz”, o novo livro de poesia do mesmo autor, que acabou por vir também embora comigo.

A banca da Booktique (https://booktique.online/index.htm) é das mais populares na feira, pois todos os livros estão à venda por apenas 1 euro. Sim, isso mesmo, 1 euro! Com este preço apetecível e uma selecção de obras invejável é impossível não perder a cabeça. Comprei uma pequena coleção de mini-clássicos e obras obrigatórias em todas as estantes de um “bom português” que faziam falta nas minhas: “O Elogio do Almanaque” e “O Deserto” de Eça de Queirós; “Meditações do Desassossego” do Bernardo Soares; “Ode Marítima” do Álvaro de Campos e “A Chinela Turca” do Machado de Assis. Por lapso, agarrei também no “Livro da Sabedoria” do Salomão, que de certo será também uma agradável leitura.

Por fim, este ano trouxe uma agradável surpresa – várias bancas (incluindo as da Fnac e do El Corte Inglês) tiveram o cuidado de ter uma seleção de livros em inglês (e frequentemente também em francês e espanhol). Assim, não resisti a adquir alguns livros que estavam na minha lista já há algum tempo (como o “Meditations” do Marcus Aurelius o “The Shell Collector” do Anthony Doerr, autor do fantástico “All the Light We Cannot See” e o “Nine Perfect Strangers” da Liane Moriarty, autora de “Big Little Lies”) e outros que me chamaram a atenção no momento, tanto pelas capas, autores e sinopses, e que espero que correspondam à expectativa (“Bridge of Clay” de Markus Zusak, autor de “The Book Thief” e “About a Boy”, do Nick Horby).

Conclusão – a minha tarde na Feira foi um sucesso. O evento não desiludiu e, como sempre, este foi um dos meus dias favoritos do ano. Talvez mais para o fim da Feira volte para explorar mais um bocadinho, mas para já estou bem servida de leituras interessantes e entusiasmantes para me acompanharem nos meses de Outono e Inverno (e possivelmente de novo confinamento) que se avizinham. Boa Feira a todos!

Lab Girl by Hope Jahren

“Lab Girl”, by Hope Jahren
read April 2020
rating: 4/5

Science has taught me that everything is more complicated than we first assume, and that being able to drive happiness from discovery is a recipe for a beautiful life.

“Lab Girl – A story of trees, science and love” é a memoir de Hope Jahren, uma reconhecida investigadora e professora universitária de Paleobiologia. Segundo a própria, é um livro sobre “trabalho e amor, e sobre as montanhas que se podem mover quando estas duas coisas se juntam.”

Tiny but determined, I navigated the confusing and unstable path of being what you are while knowing that it’s more than what peope want to see.

O livro alterna entre dois tipos de capítulos – episódios biográficos da vida pessoal e profissional da autora (enriquecidos por reflexões pessoais sobre o a exigente profissão de uma investigadora ciêntífica, e secções dedicadas às árvores e plantas que Hope tanto admira. Através da romanticização de fenómenos biológicos da Vida das Árvores, a autora desenha paralelismos para a própria vida, que nos fazem sentir mais próximos das nossas amigas produtoras de Oxigénio.

People are like plants: they grow toward the light. I chose science because science gave me what I needed – a home as defined in the most literal sense – a safe place to be.

A descrição da vida de Hope começa quando era uma criança a brincar no laboratório do pai (professor Universitário de Química). Acompanhamo-la durante a sua licenciatura e doutoramento, os duros primeiros anos como investigadora independente e aspirante a líder de um grupo de investigação, o consagrar do objetivo de ser professora universitária, e até o seu casamento com um outro investigador, Clint.

A vida de Hope e a forma como ela equilibrou (ou não equilibrou) a sua vida pessoal e carreira científica provocaram em mim sentimentos contraditórios. Se, por um lado, me revejo na sua paixão pela investigação cientifica, pela capacidade de trabalhar longas e duras horas, pela sede de conhecimento e visão do mundo injusto das bolsas de investigação e candidaturas a projetos, fiquei também muito incomodada com a forma como a autora descura completamente a sua vida pessoal, saúde e bem-estar em prol da ciência, durante grande parte da sua vida.

It was kind of tragic, I reflected, that we all spent our lives working but never really got good at our work, or even finished it.

Desde esquecer-se de comer ou dormir durante dias a fio, até afirmar que não consegue conceber a hipótese de uma vida social e romântica ativa ser combinada com uma carreira científica de suecesso, houve muitos momentos em que me apeteceu abanar Hope e dizer-lhe que o nosso trabalho científico é suposto ser parte da nossa vida, mas nunca a vida toda. A própria autora apercebe-se disto mesmo, ainda que mais tarde do que seria desejado, quando se casa com Clint, e principalmente, quando têm o primeiro filho.

However much you love your job, it ain’t going to love you back.

Acima de tudo, este livro ensinou-me muito – mostrou-me o lado da Hope que gosto de emular no meu dia-a-dia, e também aquele que luto por combater. Recomendo-o definitivamente a [email protected] os cientistas e investigadores que por vezes se sintem [email protected] nas muitas frustações diárias que vêm com a profissão e, espero que tal como a Hope, todos nós aprendamos a equilibrar a ciência e a vida de uma forma que resulta no maior objetivo de todos – a nossa felicidade.

My lab is a place where it’s just as well that I can’t sleep, because there are so many things to do in the world beside that.

“The Night Circus” – Erin Morgenstern

Lido: Março 2020
Rating: 5/5

“The Night Circus” é um livro de fantasia que se passa num mundo muito semelhante ao nosso, com alguns elementos mágicos extra. A história foca-se num Circo Mágico e misterioso que só aparece à Noite, que viaja de cidade em cidade sem nunca ser notado.

The circus arrives without warning. No announcements precede it. It is simply there when yesterday it was not.

Todos os visitantes se apercebem de imediato de que o circo é mágico, único e diferente. Erroneamente, acham que a magia do circo é resultado de ilusões extremamente inteligentes desenhadas pelos seus proprietários. Mal eles sabem que a magia do local é tão verdadeira como os leões dos truques com animais. O Circo serve como palco para o duelo entre dois aprendizes de mágico: Celia e Marco.

Estes jovens mágicos são aprendizes de dois grandes feiticeiros que discordam na forma de ensinar a sua arte, pelo que ao longo dos anos vão escolhendo estudantes dotados para se defrontarem como forma de provar qual a melhor doutrina.

We lead strange lives, chasing our dreams from place to place.

Mas o duelo de Celia e Marcus é tudo menos violento – os dois mágicos acrescentam tendas e atrações maravilhosas ao circo como forma de demonstrar as suas capacidades, à medida que se vão conhecendo e revelando um ao outro. O duelo só termina quando um morrer – ou assim tinha sido até ao momento.

To be rather than to seem.

Mas este livro fantástico é sobre muito mais do que este duelo apenas. Aliás, eu diria até que o duelo está longe de ser o principal do belíssimo retrato de Morgenstern. O circo é o seu verdadeiro protagonista. Somos levados numa viagem que começa com a criação da ideia, os planos para cada tenda e acto, a contratação de cada participante, o desenho das tendas e dos fatos, e até do mágico relógio que recebe todos os visitantes à entrada.

People see what they wish to see. And in most cases, what they are told that they see.

Este livro está escrito de uma forma bela, imersiva e tão mágica como a sua própria historia. Somos tão bem conduzidos pela aventura que nos sentimos parte dela – sentimo-nos um visitante do Night Circus. É uma história poderosa sobre as artes, o amor, a magia, a amizade e a procura pela felicidade e pelo lugar no mundo que cada um de nós deve realizar ao longo da sua vida.

Este livro é uma obra de arte pura, e ninguém poderá ficar-lhe indiferente.

Life takes us to unexpected places sometimes. The future is never set in stone.

Os Livros de Março

Livros lidos em Março de 2020

Março foi um mês peculiar, por razões que de certeza todos conhecem e compreendem. Passei metade do mês em casa, em isolamento social e tele-trabalho, pelo que acabei por conseguir ler mais do que o costume. Ainda assim, a ansiedade provocada pela situação que estamos a atravessar e as dificuldades que estou a sentir na adaptação a esta nova rotina “caseira” não me permitiram ler ainda mais. De qualquer forma, gostei de quase todos os livros que li este mês, e até encontrei dois livros que (quase) de certeza irão estar presentes no meu top de livros do ano.

Sem mais demoras, fiquem então com os livros que li em Março, um resumo simples e a classificação que dei a cada um. Irei escrever posts individuais sobre alguns destes livros, tanto aqui como no instagram (@naspantufasdarita).

  1. Letter to My Daughter, by Maya Angelou
    Este livro é uma colecção de ensaios e crónicas escritos por Maya Angelou ao longo da vida dela. Segundo a própria autora, é um conjunto de histórias, reflexões e conselhos para mulheres e raparigas do Mundo todo, consideradas por ela como as suas “filhas”. É uma leitura rápida e interessante, e algumas das crónicas são genuinamente poderosas. Infelizmente, achei que não havia grande fio condutor entre os ensaios, e que a coleção é um pouco aleatória. Ainda assim, recomendo este livro a qualquer pessoa interessada em Direitos Humanos, e irei definitivamente ler mais obras da autora.
    Rating: 4/5
  2. The Night Circus, de Erin Morgenstern
    Este livro foi IN-CRÍ-VEL. Definitivamente o meu favorito do mês, e um concorrente forte a livro favorito do ano. É uma obra de fantasia e realismo mágico, ou seja, passa-se no mundo “real” mas incorpora um sistema de magia muito particular e bem desenvolvido. Conta-nos a história de um Circo que só abre à noite, e que é diferente de todos os Circos que alguma vez existiram (e irão existir, infelizmente – é impossível ler esta história sem desejar que este circo fosse real). Ao longo do livro percebemos que o Circo é uma arena para um duelo entre dois aprendizes de mágicos, Celia e Marco. O ponto forte desta obra é definitivamente a capacidade que a autora tem de construir a atmosfera e as personagens. Irei em breve fazer um post sobre o “Night Circus”!
    Rating: 5/5
  3. Carta de uma Desconhecida, de Stefan Zweig
    Este livro é extremamente curto e rápido de ler – eu li-o numa tarde de domingo enquanto apanhava sol na varanda, e gostei bastante. É literalmente o que o títutlo diz que é: uma carta, escrita por uma mulher, enviada ao homem que ela considera o “amor da vida dela”, mas que não sabe o nome nem a verdadeira identidade dela. Ao longo da carta, vamos descobrindo qual a ligação entre a mulher e o homem, um conhecido romancista, e como se desenrolou a sua história de amor. É um livro bonito e poético com uma mensagem algo devastadora – que o amor não correspondido, aliado à falta de amor próprio ou auto-estima, pode ser tão destrutivo como a mais perigosa das doenças.
    Rating: 4/5
  4. Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago
    Este livro e autor dispensam apresentações. Considerada por muitos a obra prima de Saramago, “Ensaio Sobre a Cegueira” conta-nos a história de uma sociedade muito semelhante à nossa, na qual um vírus com consequências horríveis começa a infectar a população e a espalhar-se rapidamente. Parece familiar, certo? Foi precisamente pelos paralelismos com a situação que atravessamos atualmente que decidi ler este livro agora. No caso da obra, o vírus é o da cegueira – ao longo de vários dias, toda a população cega. Toda, com a excepção de uma mulher, cujo nome nunca chegamos a saber. Tratada apenas como “a mulher do médico”, esta heroína trágica é bem mais do que isso – é definitivamente a sua própria pessoa, essencial para o desenrolar da narrativa e sobrevivência de todos os que a rodeiam. Acima de tudo, esta é uma história sobre a natureza Humana, e a forma como o Ser Humano responde à adversidade e reage quando obrigado a entrar em modo de sobrevivência. É um livro para ser lido, relido e discutido várias vezes ao longo da vida, que recomendo a toda a gente. Apesar de ter gostado do “Memorial do Convento” quando o li no secundário, gostei bem mais deste, e fiquei com muita curiosidade de ler a sequela (“Ensaio Sobre a Lucidez“) e outras obras do reconhecido autor.
    Rating: 5/5
  5. Life Class, de Pat Barker
    Esta obra de ficção histórica passa-se durante a primeira Guerra Mundial, numa prestigiosa escola de artes em Londres. Conta-nos a história de Paul, um jovem que sonha ser pintor mas receia não ter nem o talento nem a vontade necessária para alcançar a sua aspiração. Na primeira parte do livro, vemos o mundo de Paul através dos seus próprios olhos – os seus amores e desamores, as aulas de pintura e as saídas boémia aos fins de semana. Somos apresentados ao seu grupo íntimo, no qual se destaca Elinor, que acabará por ser a segunda protagonista do livro, e com quem Paul viverá um romance intenso. Quando começa a guerra, Paul voluntaria-se com a cruz vermelha e é enviado para a Bélgica, primeiro como enfermeiro e depois como motorista de ambulâncias. Aí, vivemos com ele os horrores da guerra e o sofrimento que esta causou a muitos homens e mulheres, e somos testemunhas do impacto que a guerra tem na relação de Paul e Elinor, através das cartas que estes trocam. Este livro é delicioso – apesar de me ter partido o coração, adorei a narrativa e a forma como esta é construída e guiada, e gostei mutio de Paul. No entanto, detestei a Elinor, que me fez revirar os olhos várias vezes ao longo da obra. Ainda assim, gostei muito, e vou definitivamente ler a sequela, que se foca no irmão de Elinor, Toby.
    Rating: 4.5/5
  6. Steelheart, de Branson Sanderson
    Brandon Sanderson é considerado um dos mais prestigiados autores de Fantasia da atualidade. Mais conhecido pelas suas obras de Fantasia Épica, “Steelheart” inicia uma das trilogias mais suaves do autor, uma mistura de Fantasia, Aventura e Ficção Científica. Conta-nos a história de um mundo em alguns seres humanos, os Epics, começaram a desenvolver capacidades acima da média, equiparadas aos “poderes” que os Super-Heróis tradicionais que conhecemos têm. No entanto, e ao contrário dos Super-Heróis clássicos, neste mundo todos aqueles que têm poderes são maus, cruéis e assassinos. A personagem principal deste livro, David, é um rapaz normal que não se conforma com o Mundo em que foi condenado a viver, e que dedica toda a sua juventude a procurar formas de combater os Epics, juntando-se a um grupo de rebeldes com alta tecnologia e desejo de sangue. Esta aventura corrida é extremamente interessante, e o mundo está muito bem conseguido e construído. Acho que Sanderson está definitivamente de parabéns pela narrativa que assina. No entanto, as personagens e o diálogo foram uma desilusão – são unidimensionais, não evoluem, e é muito díficil conseguirmos gostar a sério de qualquer uma delas, pois sabemos demasiado pouco sobre quem realmente são. Ainda assim, foi uma leitura divertida e fácil, pelo que irei ler a sequela, e talvez até acabar a trilogia.
    Rating: 3.5/5

E assim, ficam aqui todos os livros que li em Março! E vocês? TIveram um bom mês de leituras?

Slaughterhouse-5

Lido: Fev 2020
Rating: 4/5

“Slaughterhouse-5”, de Kurt Vonnegut, é geralmente classificado como um “clássico antiguerra”. Publicado em 1969, o livro passa-se durante a Segunda Guerra Mundial, focando-se principalmente no bombardeamento de Dresden, vivido pelo próprio autor. É um trabalho de ficção sobre factos reais que Kurt testemunhou. Apesar da ligação pessoal de Vonnegut à história, apenas o primeiro e último capítulo são contados na primeira pessoa.

O livro inicia-se com uma confissão:

All this happened, more or less. The war parts, anyway, are pretty much true.

A personagem principal, Billy Pilgrim, é um americano enviado para a guerra com apenas 20 anos, durante a qual vive (e sobrevive) vários eventos traumáticos. Depois do fim da guerra, de volta à sua terra, é internado num hospital psiquiátrico por ter dificuldades em adaptar-se à vida “normal”. Eventualmente, é considerado “curado”, casa-se e torna-se num optometrista famoso.

Na sua vida pós-guerra, Billy descobre que consegue viajar no tempo e visitar acontecimentos do seu passado e futuro – consegue ficar “unstuck in time”, como o próprio descreve. Para além disso, a certa altura o nosso infeliz protagonista é raptado por um grupo de Aliens que o levam para o seu planeta e o expõem num zoo cheio de seres humanos. Estes momentos são um reflexo do stress pós-traumático de que Billy sofre como consequência do que viveu na guerra, mas são-nos contados como sendo eventos reais.

Well, here we are, Mr. Pilgrim, trapped in the amber of this moment. There is no why.

Eu gostei muito deste livro, apesar de o ter achado algo confuso. Quando acabei de o ler senti que não o tinha compreendido da forma que gosto de perceber os livros, o que me levou a fazer bastante pesquisa sobre o autor e a história em si. No entanto, ao contrário do que seria de esperar, todo este trabalho apenas contribuiu para me fazer gostar ainda mais da história, das personagens, da escrita e, consquentemente, do autor. É um livro difícil e pesado, sim. Mas é também um livro transformador.

What he meant, of course, was that there would always be wars, and that they were as easy to stop as glaciers. I believe in that, too.

A narrativa é bem construída e extremamente inteligente, e o autor é capaz de descrever eventos e sofrimentos horríveis de forma semi-poética sem nunca diminuir o quão nefasta toda a situação foi. É decididamente um livro que hei de reler várias vezes ao longo da minha vida e que recomendo a qualquer pessoa que tenha interesse por livros sobre a guerra.

People aren’t supposed to look back. I’m certainly not going to do it anymore.

All the Light We Cannot See

Lido: Janeiro 2020
Rating: 5/5

“All the Light We Cannot See”, de Anthony Doerr passa-se durante a segunda Guerra Mundial e foca-se em duas jovens personagens: Marie e Werner.

“All the Light We Cannot See” – Anthony Doerr

Marie é uma jovem francesa com uma história trágica, tendo ficado orfã de mãe muito cedo. Com apenas oito anos, um problema de saúde leva-a a perder a visão. O seu pai, chaveiro do Museu de História Natural da cidade, faz tudo o que pode para ajudar Marie a adaptar-se à sua nova realidade, preparando-a para viver no mundo de forma independente.

In a corner of the city, inside a tall, narrow house at Number 4 rue Vauborel, on the sixth and highest floor, a sightless sixteen year old named Marie-Laure LeBlanc kneels over a low table covered entirely with a model.

Werner é um jovem órfão alemão que cresceu num orfanato com a irmã. Muito astuto e inteligente desde criança, encontra um rádio estragado que consegue reparar, iniciando assim a sua “carreira” improvisada e mecânico de rádios da cidade. As suas capacidades chamam a atenção das autoridades que o recrutam para estudar num colégio privado destinado a formar a juventude Hitleriana, com o objetivo de formar soldados para a guerra.

Five streets to the north, a white-haired eighteen-year-old German private named Werner Pfenning wakes to a faint staccato hum.

As nossas personagens surgem em lados opostos da História – Marie vê-se obrigada a abandonar a cidade em que vive quando os alemães começam a bombardeá-la, e Werner faz parte das forças militares que invadem França e lutam pelo exército germânico.

History is whatever the victors say it is. That’s the lesson. whoever wins, that’s who decides the history.

Construída com analepses e prolepses temporais e viagens no espaço, esta história apresenta diversas personagens secundárias e acessórias que contribuem para a sua misticidade. A narrativa de Anthony Doerr é fluída e extremamente bem construída, e cada frase deixa-nos com vontade de ler a frase seguinte.

The sea seems big enough to contain everything anyone could ever feel.

Eu adorei este livro. Depois de ter lido “The Book Thief” há uns anos, receei nunca mais encontrar um livro da segunda guerra mundial que me fizesse sentir da mesma forma – até ler “All the Light We Cannot See”. O retrato de guerra é feito de forma quase dissimulada, já que nenhuma das nossas personagens está em contacto directo com as figuras “mais relevantes” nem tem um papel activo no conflito, o que nos permite ter uma ideia de como a guerra é vivida pelas populações e pessoas comuns.

Senti frequentemente que este era um livro antiguerra: tal nunca nos é dito diretamente, mas a forma como o conflito é descrito, e as reflexões e vivências que as nossas personagens sofrem, levam-nos a esquecer que país é que está a “ganhar” ou a “perder” ou quem é que tem a “razão”. Chegamos à inevitável conclusão de que ninguém ganha numa guerra e de que nada justifica as atrocidades e violações dos Direitos Humanos cometidas.

Everyone remembers the last war, and no one is mad enough to go through that again.

Não quero revelar demasiado do enredo – acho que o livro merece ser mantido em segredo, e que cada leitor tem direito à fantástica viagem que é a sua leitura. Fica o aviso: é um livro para chorar muito, mas também rir, refletir e, acima de tudo, entreter. Entrou automaticamente para a minha lista de livros favoritos do ano (apesar de ter sido apenas o segundo que li!), e talvez até da vida toda.

Science is made up of mistakes, but they are mistakes which are useful to make, because they lead little by little to the truth.

O livro tem também bastantes cientistas e engenheiros, cuja paixão pelo que fazem é descrita de uma forma deliciosa. Como bioquímica, encontrei várias passagens que me relembraram o porquê de gostar do que faço, algo que contribuiu para gostar ainda mais da história, das personagens e, consequentemente, do autor.

Recomendo de forma generalizada esta obra, independentemente de idade ou nível de interesse por história ou temas de guerra do leitor, acredito que este livro tem qualquer coisa para toda a gente.

If Cats Disappeared From The World

Lido: Janeiro 2020
Rating: 4/5

“If Cats Disappeared From the World”, de Genki Kawamura, conta-nos a história de um jovem carteiro de 30 anos. No início do livro, o protagonista descobre que tem um tumor cerebral incurável – e seis meses para viver. Confuso e aterrorizado com a sua mortalidade iminente, começa a fazer uma lista de 10 coisas a fazer antes de morrer – apenas para se perceber que não tem boas ideias. A única coisa que quer é não morrer.

The future you will never get to see is what you regret missing the most when you die.

If Cats Disappeared From the World – Genki Kawamura

Quando chega ao apartamento que partilha com o seu gato Cabbage, encontra-se com o diabo, ou uma estranha versão moderna deste, vestido com uma camisa havaiana e calções. O diabo, tão sarcástico e mesquinho como sempre, diz-lhe que os médicos estão errados e que em vez de meses o jovem tem apenas um dia de vida.

E é nesse momento que as coisas se tornam interessantes.

Life is a tragedy when seen in close-up, but a comedy in long-shot.

O diabo faz uma proposta – por cada coisa que o nosso protagonista retirar do mundo (fazer desaparecer), ganha um dia de vida. A princípio parece uma solução simples, mas não se enganem. O diabo deixa pouco espaço de manobra para o nosso jovem decidir o que quer que desapareça do mundo, e as coisas que sugere (desde relógios, telemóveis, filmes até aos gatos) vão sendo cada vez mais relevantes.

Cats simply allow us the pleasure of their company.

O livro está dividido em capítulos por cada dia de vida que o nosso carteiro ganha, e consequentemente por cada coisa que ele retira do Mundo. Seguimo-lo enquanto ele tenta explicar ao melhor amigo, à ex-namorada e até à família da qual se afastou que está a morrer, e temos um lugar privilegiado para testemunhar as suas reflexões, inquietações, memórias e decisões.

Instead of thinking of family as just being there, you need to think of it as something you do. Family is a verb – you do Family.

O tema do livro é bastante pesado, sim – mas a história em si é bastante simples, assim como a linguagem. Dá ideia de que o “trabalho” de reflexão profunda deve ser feito pelo leitor e não pelo autor, algo de que gostei bastante. Cada momento vivido e decisão tomada pelo nosso protagonista mundano levam-nos a pensar na nossa própria vida, e no que faríamos no seu lugar. Foi definitivamente um bom primeiro livro para o ano de 2020, que me proporcionou bons momentos durante a leitura, mas momentos ainda melhores enquanto pensava e escrevia sobre o livro e o que os pensamentos e sentimentos que vieram com ele.

I don’t know whether I’m happy or unhappy. But there’s one thing I do know – you can convince yourself to be happy or unhappy. It just depends on how you chose to see things.