Feira do Livro 2020

O fim de Agosto traz um dos meus eventos favoritos do ano – A Feira do Livro do Porto. Num ano tão atípico e com tantas desilusões como tem sido 2020, a realização da Feira do Livro trouxe-me ainda mais felicidade do que em outros anos. Desde que me lembro nunca perdi uma edição, e é já uma tradição de família passarmos um ou dois dias a explorar as banquinhas da feira.

Palácio de Cristal // Agosto 2020

A Feira abriu ontem (28 de Agosto) e estará aberta até 13 de Setembro, nos jardins do Palácio de Cristal, com o tema “Alegria para o fim do mundo”. Com lotação controlada e limitada, stands de álcool-gel espalhados pelo recinto e obrigatoriedade no uso de máscara, senti-me perfeitamente segura o tempo todo. E a feira não desiludiu.

Saí de casa com uma lista de três livros a comprar, já sabendo que dificilmente teria a força de vontade para me restringir a tal. E assim foi. Como se costuma dizer, “perdi a cabeça”, mas ganhei livros que estou ansiosa por ler, pelo que não me arrependo. Assim, sem mais demoras, fiquem com as minhas comprinhas neste ano na feira.

A primeira banca a que fui, da Poetria (https://www.poetria.pt/) foi de longe a minha favorita. Super bem organizada, com uma variedade de livros de poesia e teatro invejável, e funcionários extremamente simpáticos e prestáveis, foi onde encontrei mais alegria. Aqui comprei quatro livros de poesia:
– “Os Poemas Possíveis”, de José Saramago – confesso que até ao momento não sabia que Saramago tinha um livro de poesia, mas estou felicíssima por o ter encontrado. Este é talvez o livro que mais vontade tenho de ler, sinto que não vai chegar ao fim de Setembro sem a espinha quebrada (metaforicamente, claro!)
– “Penguin’s Poems for Love” – as colectâneas de poesia da Penguin são espetaculares, e uma forma incrível e económica de conhecer novos autores e explorar temas específicos. Já tenho companhia para as noites em que só me apetece abrir um rosé e ler poesia de amor!
– “The Complete Poems”, de Emily Dickinson – andava há meses à procura de uma colectânea da Emily Dickinson que valesse a pena, e na Poetria encontrei-a finalmente. A um preço incrível (16 euros!!!), de elevada qualidade e com mais de 700 poemas, tenho finalmente a edição definitiva que tanto cobiçava.

O Afonso Cruz é um dos meus autores favoritos, e a pouco e pouco tenho procurado coleccionar as suas obras, que tanto me entretêm. Encontrei esta edição limitada d’”As Flores” que combina com a minha edição de “Jesus Cristo Bebia Cerveja” e não resisti a trazê-la comigo. Ainda na Poetria, foi-me recomendado o “paz traz paz”, o novo livro de poesia do mesmo autor, que acabou por vir também embora comigo.

A banca da Booktique (https://booktique.online/index.htm) é das mais populares na feira, pois todos os livros estão à venda por apenas 1 euro. Sim, isso mesmo, 1 euro! Com este preço apetecível e uma selecção de obras invejável é impossível não perder a cabeça. Comprei uma pequena coleção de mini-clássicos e obras obrigatórias em todas as estantes de um “bom português” que faziam falta nas minhas: “O Elogio do Almanaque” e “O Deserto” de Eça de Queirós; “Meditações do Desassossego” do Bernardo Soares; “Ode Marítima” do Álvaro de Campos e “A Chinela Turca” do Machado de Assis. Por lapso, agarrei também no “Livro da Sabedoria” do Salomão, que de certo será também uma agradável leitura.

Por fim, este ano trouxe uma agradável surpresa – várias bancas (incluindo as da Fnac e do El Corte Inglês) tiveram o cuidado de ter uma seleção de livros em inglês (e frequentemente também em francês e espanhol). Assim, não resisti a adquir alguns livros que estavam na minha lista já há algum tempo (como o “Meditations” do Marcus Aurelius o “The Shell Collector” do Anthony Doerr, autor do fantástico “All the Light We Cannot See” e o “Nine Perfect Strangers” da Liane Moriarty, autora de “Big Little Lies”) e outros que me chamaram a atenção no momento, tanto pelas capas, autores e sinopses, e que espero que correspondam à expectativa (“Bridge of Clay” de Markus Zusak, autor de “The Book Thief” e “About a Boy”, do Nick Horby).

Conclusão – a minha tarde na Feira foi um sucesso. O evento não desiludiu e, como sempre, este foi um dos meus dias favoritos do ano. Talvez mais para o fim da Feira volte para explorar mais um bocadinho, mas para já estou bem servida de leituras interessantes e entusiasmantes para me acompanharem nos meses de Outono e Inverno (e possivelmente de novo confinamento) que se avizinham. Boa Feira a todos!

Hurricane Amy

              “I never thought I would be happy to see you with somebody new”, he says, almost in an inaudible whisper. She smiles, a shadow of the bitterness their last encounter left in her still present in the air. Around them, the concert went on, and they became enveloped by the foggy clouds of cigarette smoke mixed with that being produced by the old machine, glued to the stage. The bright pink and purple lights shone feverishly around them, transfiguring their expressions as their eyes were fixed on each other’s gazes. Amy was somewhat aware of her boyfriend standing 5 meters away from them, at the frontline, too into the music blasting through the speakers to realize she was not dancing right by his side. For once, she did not resent this. She noticed how the corners of Mathew’s eyes were more wrinkled than before, how his beard had darkened at the tips, and his forehead was now higher on his head, pushing his dirt blond curls back. Involuntarily, her hand rose to waist level, on her way to stroke his cheek, muscle memory of the tenderness and intimacy the two used to share. He smiled down at her, nervously. “Yeah”, she answers. “I never thought I’d be happy with somebody else”. Her words come out as a mere murmur, inaudible to anyone else but him, and only because he could read her lips like an open book. As the seconds tick further, Mathew nods, defeatedly.

              “Are you enjoying the concert?”, hands in his pockets, looking everywhere but at her face, wondering where his friends had run off to. Amy smiles at his familiar defense tactics. “Not really. But my boyfriend really likes this band.” “You were never one for live music. I remember”. She takes a step forward, her perfume mixing with the salty taste of the atmosphere that surrounds him. “What else do you remember?” she tempts, biting at her lower lip, red lipstick now staining her front teeth. He rolls his eyes at her impatiently, breathing out of his nose intently. “Stop, don’t do this. I’m happy for you, Amy. It’s good to see you, you look good. I hope everything is well. Have fun, okay?”. He raised his hands in front of his chest defensively, as her eyes became watery. Too tipsy to care about causing a scene and too high to notice Steve walking in her direction, she launched herself forward, rising to her tippy toes to stare Mathew in his eyes. “That’s rich. I don’t remember the last time you said so many words at your own free will. Guess after we broke up you finally learned how to communicate”.

              Mathew’s eyebrows drew together, and his nostrils dilated. Amy smiled, satisfied that she still had the power to get a reaction out of him so easily. Someone bumped against Matthew and he tipped forward, but quickly regained his balance, avoiding contact with the body in front of him. He became aware of a male persona standing behind Amy and eyeing him furiously. Her boyfriend. Many possible answers went through his brain, all of them ending with a well enunciated “Fuck you” and a storm off. However, he suddenly remembered how this whole conversation had started. He remembered how genuinely happy to see her moving on with someone else made him, how that validated that he had too. Amy’s temper and snarky remarks were scratching at poorly closed wounds of the violent fights that had adorned their feisty relationship. He was suddenly inundated with overwhelming certainty that he did not miss her, or want her back, at all. More than so – he had no desire to comply to her stinginess. There was no role for him to play in her mind games, anymore. And so, he smiled widely and sincerely, taking the girl in front of him by surprise. Fuming, Amy’s nails punctured her palms, as she fought for control over her emotions – but she had always been a tempestuous hurricane no one could quite prepare for. “It seems like it, I guess”, he finally answered, turning his back to her. “Take care, Amy”.

              “Fuck off!” she screamed at his back as he cheerfully walked away, finally laying eyes on his mates doing shots at the bar. He could hear sounds of a fight breaking out between a couple behind him and recognized the timber of Amy’s temper propagating in the small, crowded space. The band was not playing any more, and an obnoxious DJ replaced it.

              As he walked home, feeling the soft summer drizzle of the warm July night, Matthew reminisced on the night he had met Amy, at a club very similar to the one he had just left. She had been wearing a flowy white dress, contrasting against the dark tones of the rest of the bar’s population. Dancing completely out of beat as she inhaled tequila shots and floated around the arena, he had been taken by the dangerous feeling that she was different from the rest and that he, therefore, had to have her. She had that “I’m not like other girls” vibe about her, which made her irresistible to him. As he grew older, Matthew came to the realisation that there is nothing wrong with the “other girls”, and that those who make it a point to distance themselves from them and diminish their peers in other to compliment themselves are the girls one should be wary of. But on that night, many moons and lessons ago, he did not know this. And so he pursued her and let her play him for a fool, convinced that this cat and mouse game was the most raw and real romantic quest anyone could engage in.

As the weeks grew longer into the winter and his dates with Amy became more frequent, his friends tried to warn him – they saw right through her façade. But Mathew did not. He was in love, he said. Infatuated, enchanted, transfigured, forever dedicated. Drunk in love, and lust, and completely blind to the manipulative tactics of the girl he fell asleep holding each night. But the years had passed, and after hitting rock bottom and leaving her, all the therapy sessions and disastrous online dating and drunken pizza and star wars marathons served him well, as he grew into a new and improved version of himself.

He was genuinely happy to see her with someone else – not because he thought she was happy or changed, for he had understood long before that Amy had no soul to change, only a gigantic ego to drown herself in further and further. He was happy because her being with someone else reminded him of how free of her he now was. Matthew did not feel the need to move houses or cities or countries any more, he did not look for her in crowded shops or loud cafés, he was able to watch her favourite movie without giving her fleeting image more than a moment’s notice. He had moved on, and moved over, and was happier than ever.

Their love story had had more thorns than roses, but all was well now – Matthew could see it for what it was and move forward with no remorse, en route to the next twirling girl in another bar at another time, but never forgetting his worth again. At least for that, he was grateful. So, as he opened his house door and kneeled on the floor petting his dog, he thanked Amy for the storm she had caused in his life and thanked himself for the strength that took to whisk the hurricane away and bring about his own breaking dawn.

Assemelha-se a ti, o oceano.

              Assemelha-se a ti, o oceano. Infinito e profundo. Agitado à superfície, calmo e misterioso nas profundezas. As tuas ondas de humor e afecto assombram-me de forma rítmica, num tique-taque constante de avanços e recuos, de cedências e condescendências. És incapaz de proferir palavras certas e finais, ou de me dar uma resposta directa que não evoque mais dúvidas do que as contidas na minha pergunta inicial. Conversar contigo é como jogar um jogo de tabuleiro em que eu sou o peão e tu o detentor das regras, sem que me seja concedido acesso às mesmas. Escapa-me o objectivo. Não costumo hesitar quando entro no oceano – mesmo quando a temperatura da água me convida a voltar ao areal, mergulho de cabeça sem pensar duas vezes. Acredito que tudo é mais fácil quando submergimos de uma vez. No entanto, sou incapaz de fazer o mesmo com o oceano que és tu. Dou por mim a lutar por manter o equilíbrio enquanto a tua maré me troca as voltas, me empurra e puxa simultaneamente, me envolve com uma espuma de indiferença seguida de uma onda de carinho e afecto. Preferia mergulhar e afogar-me, saber de uma vez por todas o que está no fundo, na concha do teu ser, do que continuar a flutuar no desconhecido. Mas encontro-me demasiado receosa e covarde para descobrir a verdade dos teus sentimentos, incapaz de arriscar destruir a fantasia que criei na minha mente. E assim continuo, agarrada a uma jangada que diminui a cada dia que passa, incapaz de afastar o sentimento de que não há forma de eu sair ilesa desta aventura, mas também impossibilitada de me afastar agora – sou como um marinheiro iludido pelo canto da sereia que se deixa arrastar contra as rochas afiadas até perder os sentidos. Sou talvez ainda pior, pois consigo sentir-me a ser arrastada e em vez de nadar contra a corrente deixo-me ir, mergulho-me na possibilidade, com a certeza de que os penhascos me vão trespassar o coração. Assemelha-se a ti, o oceano. Igualmente belo, fascinante e assustador. Assemelha-se a ti, o oceano.  

                               - Rita P. Magalhães (Julho 2019)
Julho de 2020 – Praia de Matosinhos

Lab Girl by Hope Jahren

“Lab Girl”, by Hope Jahren
read April 2020
rating: 4/5

Science has taught me that everything is more complicated than we first assume, and that being able to drive happiness from discovery is a recipe for a beautiful life.

“Lab Girl – A story of trees, science and love” é a memoir de Hope Jahren, uma reconhecida investigadora e professora universitária de Paleobiologia. Segundo a própria, é um livro sobre “trabalho e amor, e sobre as montanhas que se podem mover quando estas duas coisas se juntam.”

Tiny but determined, I navigated the confusing and unstable path of being what you are while knowing that it’s more than what peope want to see.

O livro alterna entre dois tipos de capítulos – episódios biográficos da vida pessoal e profissional da autora (enriquecidos por reflexões pessoais sobre o a exigente profissão de uma investigadora ciêntífica, e secções dedicadas às árvores e plantas que Hope tanto admira. Através da romanticização de fenómenos biológicos da Vida das Árvores, a autora desenha paralelismos para a própria vida, que nos fazem sentir mais próximos das nossas amigas produtoras de Oxigénio.

People are like plants: they grow toward the light. I chose science because science gave me what I needed – a home as defined in the most literal sense – a safe place to be.

A descrição da vida de Hope começa quando era uma criança a brincar no laboratório do pai (professor Universitário de Química). Acompanhamo-la durante a sua licenciatura e doutoramento, os duros primeiros anos como investigadora independente e aspirante a líder de um grupo de investigação, o consagrar do objetivo de ser professora universitária, e até o seu casamento com um outro investigador, Clint.

A vida de Hope e a forma como ela equilibrou (ou não equilibrou) a sua vida pessoal e carreira científica provocaram em mim sentimentos contraditórios. Se, por um lado, me revejo na sua paixão pela investigação cientifica, pela capacidade de trabalhar longas e duras horas, pela sede de conhecimento e visão do mundo injusto das bolsas de investigação e candidaturas a projetos, fiquei também muito incomodada com a forma como a autora descura completamente a sua vida pessoal, saúde e bem-estar em prol da ciência, durante grande parte da sua vida.

It was kind of tragic, I reflected, that we all spent our lives working but never really got good at our work, or even finished it.

Desde esquecer-se de comer ou dormir durante dias a fio, até afirmar que não consegue conceber a hipótese de uma vida social e romântica ativa ser combinada com uma carreira científica de suecesso, houve muitos momentos em que me apeteceu abanar Hope e dizer-lhe que o nosso trabalho científico é suposto ser parte da nossa vida, mas nunca a vida toda. A própria autora apercebe-se disto mesmo, ainda que mais tarde do que seria desejado, quando se casa com Clint, e principalmente, quando têm o primeiro filho.

However much you love your job, it ain’t going to love you back.

Acima de tudo, este livro ensinou-me muito – mostrou-me o lado da Hope que gosto de emular no meu dia-a-dia, e também aquele que luto por combater. Recomendo-o definitivamente a [email protected] os cientistas e investigadores que por vezes se sintem [email protected] nas muitas frustações diárias que vêm com a profissão e, espero que tal como a Hope, todos nós aprendamos a equilibrar a ciência e a vida de uma forma que resulta no maior objetivo de todos – a nossa felicidade.

My lab is a place where it’s just as well that I can’t sleep, because there are so many things to do in the world beside that.

Poema da Semana #7

I dwell in Possibility

I dwell in Possibility –
A fairer House than Prose –
More numerous of Windows –
Superior – for Doors –

Of Chambers as the Cedars –
Impregnable of eye –
And for an everlasting Roof
The Gambrels of the Sky –

Of Visitors – the fairest –
For Occupation – This –
The spreading wide my narrow Hands
To gather Paradise –

                                     Emily Dickinson
Londres, 2018