amor – um poema e uma música.

Tinha outro post inteiramente diferente preparado para hoje mas o desafio que Magda Cruz do Ponto Final, Parágrafo, um dos meus podcasts preferidos, lançou no instagram inspirou-me a dedicar algumas linhas a este dia tão moderno e clássico ao mesmo tempo.

Hoje é dia 14 de fevereiro, dia de são Valentim, ou dia dos namorados – o dia do amor. A Magda desafiou os ouvintes do podcast a sugerir os seus poemas ou textos de amor favoritos. A minha mente foi de imediato para “A Química”, de José Saramago, poema que mereceu já uma partilha exclusiva no blog. Sublimemos, amor. Uma declaração romântica alusiva à sublimação, a passagem da matéria do estado sólido para o estado gasoso, qualquer coisa como ascender a uma nova dimensão em que existem apenas duas pessoas – Saramago e o seu amor, com quem sublima.

Nesse sentido, a Magda introduziu-me ao “Poema de amor” do Pedro Mexia, que passo a transcrever:

Alprazolam, domipramina, noradrenalina,

monoamina, seretonina, fluoxetina.

Pedro Mexia

A Alprazolam e a Domipramina são dois fármacos tipicamente usados para tratar distúrbios e sintomas de pânico e ansiedade, e para mim representam duas realidades opostas mas igualmente válidas do que o amor faz ao ser humano. Ao mesmo tempo que nos causa alguma ansiedade (aquele medo de ser ou não correspondido, as borboletas no estômago de nervosismo perante a infinidade de cenários que se apresentam quando abrimos o nosso coração a alguém), pode também ser a cura para as ansiedades do dia-a-dia. Partilhar as nossas inquietudes e derrotas com alguém que nos ama e quer o nosso bem é, por vezes, o melhor fármaco possível para minimizar estes sentimentos negativos, ou pelo menos para os tolerar melhor.

A Noradrenalina e a Serotonina são monoaminas, neurotransmissores relacionados com o humor, a ansiedade, o nosso estado de espírito, o sono, a alimentação etc em resumo – afectam tudo. Conhecida popularmente como hormona da felicidade, a serotonina é frequentemente responsável por distúrbios depressivos quando algo falha na sua produção ou nos receptores naturais que possuímos. E é precisamente nesses casos que entra em acção a Fluoxetina, um fármaco antidepressivo. Também aqui entendo a dualidade do que é o amor – ao mesmo tempo que leva à produção de hormonas e neurotransmissores responsáveis pela felicidade, é também causador de desregulação de todo o nosso organismo. O amor é capaz de tirar sono, afectar o apetite ou induzir-nos a passar uma tarde na cozinha a fazer brownies ou panquecas para alguém de quem gostamos; tira-nos o ar ao mesmo tempo que nos faz respirar melhor. Quando corre bem, exacerba todos os bons sentimentos e felicidades que experienciamos. Quando corre mal e o coração se parte ou magoa é capaz de nos enterrar em sentimentos depressivos comparáveis aos causados pela ausência da tão já referida hormona da felicidade.

O amor não pode ser (nem deve) ser reduzido a reações químicas ou neuronais – é um mistério superior à capacidade explanatória da ciência, e por mim pode continuar assim.

Agora num tom menos poético e mais cru, tal como o amor frequentemente também é, queria partilhar a música “Qualquer Coisa” dos Time for T, que tem uma vibe absolutamente tranquila e boa onda. Escrita durante esta estranha pandemia que vivemos, transmite muitas das coisas simples que tomávamos por garantidas e de que agora sentimos falta, como “Aquelas tardes de cerveja tornam-se em noites de macieira” ou ainda “Aquele cinema no estendal, o nosso tímido carnaval“. Uma ode ao dia-a-dia que este vírus nos roubou e que também é amor, e às coisas mundanas que mal podemos esperar por rever e re-reclamar como nossas.

Qualquer coisa no vinho, qualquer coisa no ar
Qualquer coisa no mel, qualquer coisa no marAquele cheirinho eucalipto, aquela mordida à la mosquito
Aquele drogado educado, aquele rico malcriado
Aqueles turistas perdidos bebem vinho verde felizes
Aqueles artistas servem à mesa, até os forretas deixam gorjetaOh amanhã é mais um dia que vai tornar-se ontem
Oh amanhã é mais um dia que vai tornar-se ontem
Qualquer coisa no vinho, qualquer coisa no ar
Qualquer coisa no mel, qualquer coisa no marAquele pênalti anulado, aquele carro mal estacionado
O portal das finanças, um labirinto sem esperanças
Aquele café da manhã, aquela vizinha de sutiã
Aquelas tardes de cerveja tornam-se em noites de macieiraOh amanhã é mais um dia que vai tornar-se ontem
Oh amanhã é mais um dia que vai tornar-se ontem
Qualquer coisa no vinho, qualquer coisa no ar
Qualquer coisa no mel, qualquer coisa no marAquela nuvem de perfume das meninas em cardume
Que mergulham no cais sodré, sem nunca molhar os pés
Aquele cinema no estendal, o nosso tímido carnaval
Aquele cheiro a sardinhas e haxixe, os santos devem estar felizesOh amanhã é mais um dia que vai tornar-se ontem
Oh amanhã é mais um dia que vai tornar-se ontem
Qualquer coisa no vinho, qualquer coisa no ar
Qualquer coisa no mel, qualquer coisa no marAquela caça do gambuzino, segue-me que eu sei o caminho
Muitos anos a virar frangos, toma lá morangos
Aquele amor em sprint, aquela pilula do dia seguinteAquele cheirinho de carvão, torna o medroso em rei leão
Os artistas de hoje em dia sobrevivem na pandemia
Toma lá pra te entreteres é só putas e recibos verdes

sinal de gps perdido

sou terrível a seguir o gps – confundo a esquerda com a direita, o norte com o sul, as saídas e os metros e os kilómetros. não sei nomes de ruas nem auto-estradas nem nacionais nem IPs nem vias equiparadas. saio de casa 15 minutos antes do suposto para prevenir as vezes que me vou perder e o tempo que demoro a estacionar, e se fico sem bateria o melhor é esquecerem que tínhamos planos porque o mais provável é eu nunca chegar ao destino. ou ir parar a lisboa a tentar.

é comum as pessoas assumirem que vou (ou devia) saber o caminho só porque já o fiz duas, três ou dez vezes, quando a verdade é que tenho todas as moradas importantes e dos sítios que mais frequento guardadas como favoritos na aplicação do gps.

houve uma altura em que isto me incomodava – sentia-me inútil, infantil e dependente. três coisas que são, até certo ponto, verdade. mas no fundo não é só no carro ou a seguir o gps que me perco, sou despassarada e aérea por natureza e cada vez vivo melhor com isso.

já me perdi a andar a pé, já apanhei duas vezes o comboio errado no mesmo dia, já fui ter à fnac quando era suposto ter ido ter à “fac” (leia-se, faculdade). engano-me frequentemente no lado do metro ou direção do autocarro (principalmente se for circular). durante o meu Erasmus fiz mais explorações acidentais da cidade do que propositadas, conheci pessoas e lojas e ruas que nunca consegui rever por não me lembrar do caminho que me tinha levado lá.

tenho sempre a cabeça na lua – tropeço uma média de dez vezes por dia, vou contra portas e esquinas e armários e tudo e mais alguma coisa, esqueço-me de esperar pelo verde para peões e arrisco ser atropelada, choco com postes e árvores e caio em escadas e rampas, ruas lisas e em paralelo. e nem sequer uso saltos altos.

comecei este post com a intenção de estabelecer um paralelismo entre o gps e os sinais que as outras pessoas e o mundo à minha volta no geral me dão, e a minha falta de capacidade frequente para interpretar ambos corretamente. às vezes penso esquerda e viro à direita (mas só na estrada); às vezes acho que alguém quer o meu bem e uns meses depois descubro que não. gostava que existisse um gps para relações e para a humanidade, algo que ajudasse nas decisões do dia a dia – será que vale a pena investir nesta amizade ? será que compensa ir a este encontro / aceitar esta proposta / escolher este tema de dissertação / assinar este contrato /alugar esta casa / confiar nesta pessoa etc etc etc

algo que previsse com alguma antecedência o trânsito e os obstáculos que cada caminho possível acarreta e representa e calculasse o percurso mais rápido e sem portagens ou operações STOP. um gps de emoções e de decisões.

mas depois de tudo o que revelei eleva-se uma pergunta mais do que evidente – se este gps existisse, será que seria capaz de o seguir sem me perder? sou despassarada na estrada e por vezes na vida, mas cada vez acho mais que acabo sempre por chegar onde devia – mesmo que depois da hora combinada. e nem tudo é mau. perco frequentemente o sinal do gps, mas encontro sempre algo diferente e inesperado (nem que seja uma rua sem saída), e acumulo histórias e aventuras que valem bem mais do que os minutos perdidos em filas de trânsito evitáveis. e estou genuinamente okay com isso.

Hurricane Amy

              “I never thought I would be happy to see you with somebody new”, he says, almost in an inaudible whisper. She smiles, a shadow of the bitterness their last encounter left in her still present in the air. Around them, the concert went on, and they became enveloped by the foggy clouds of cigarette smoke mixed with that being produced by the old machine, glued to the stage. The bright pink and purple lights shone feverishly around them, transfiguring their expressions as their eyes were fixed on each other’s gazes. Amy was somewhat aware of her boyfriend standing 5 meters away from them, at the frontline, too into the music blasting through the speakers to realize she was not dancing right by his side. For once, she did not resent this. She noticed how the corners of Mathew’s eyes were more wrinkled than before, how his beard had darkened at the tips, and his forehead was now higher on his head, pushing his dirt blond curls back. Involuntarily, her hand rose to waist level, on her way to stroke his cheek, muscle memory of the tenderness and intimacy the two used to share. He smiled down at her, nervously. “Yeah”, she answers. “I never thought I’d be happy with somebody else”. Her words come out as a mere murmur, inaudible to anyone else but him, and only because he could read her lips like an open book. As the seconds tick further, Mathew nods, defeatedly.

              “Are you enjoying the concert?”, hands in his pockets, looking everywhere but at her face, wondering where his friends had run off to. Amy smiles at his familiar defense tactics. “Not really. But my boyfriend really likes this band.” “You were never one for live music. I remember”. She takes a step forward, her perfume mixing with the salty taste of the atmosphere that surrounds him. “What else do you remember?” she tempts, biting at her lower lip, red lipstick now staining her front teeth. He rolls his eyes at her impatiently, breathing out of his nose intently. “Stop, don’t do this. I’m happy for you, Amy. It’s good to see you, you look good. I hope everything is well. Have fun, okay?”. He raised his hands in front of his chest defensively, as her eyes became watery. Too tipsy to care about causing a scene and too high to notice Steve walking in her direction, she launched herself forward, rising to her tippy toes to stare Mathew in his eyes. “That’s rich. I don’t remember the last time you said so many words at your own free will. Guess after we broke up you finally learned how to communicate”.

              Mathew’s eyebrows drew together, and his nostrils dilated. Amy smiled, satisfied that she still had the power to get a reaction out of him so easily. Someone bumped against Matthew and he tipped forward, but quickly regained his balance, avoiding contact with the body in front of him. He became aware of a male persona standing behind Amy and eyeing him furiously. Her boyfriend. Many possible answers went through his brain, all of them ending with a well enunciated “Fuck you” and a storm off. However, he suddenly remembered how this whole conversation had started. He remembered how genuinely happy to see her moving on with someone else made him, how that validated that he had too. Amy’s temper and snarky remarks were scratching at poorly closed wounds of the violent fights that had adorned their feisty relationship. He was suddenly inundated with overwhelming certainty that he did not miss her, or want her back, at all. More than so – he had no desire to comply to her stinginess. There was no role for him to play in her mind games, anymore. And so, he smiled widely and sincerely, taking the girl in front of him by surprise. Fuming, Amy’s nails punctured her palms, as she fought for control over her emotions – but she had always been a tempestuous hurricane no one could quite prepare for. “It seems like it, I guess”, he finally answered, turning his back to her. “Take care, Amy”.

              “Fuck off!” she screamed at his back as he cheerfully walked away, finally laying eyes on his mates doing shots at the bar. He could hear sounds of a fight breaking out between a couple behind him and recognized the timber of Amy’s temper propagating in the small, crowded space. The band was not playing any more, and an obnoxious DJ replaced it.

              As he walked home, feeling the soft summer drizzle of the warm July night, Matthew reminisced on the night he had met Amy, at a club very similar to the one he had just left. She had been wearing a flowy white dress, contrasting against the dark tones of the rest of the bar’s population. Dancing completely out of beat as she inhaled tequila shots and floated around the arena, he had been taken by the dangerous feeling that she was different from the rest and that he, therefore, had to have her. She had that “I’m not like other girls” vibe about her, which made her irresistible to him. As he grew older, Matthew came to the realisation that there is nothing wrong with the “other girls”, and that those who make it a point to distance themselves from them and diminish their peers in other to compliment themselves are the girls one should be wary of. But on that night, many moons and lessons ago, he did not know this. And so he pursued her and let her play him for a fool, convinced that this cat and mouse game was the most raw and real romantic quest anyone could engage in.

As the weeks grew longer into the winter and his dates with Amy became more frequent, his friends tried to warn him – they saw right through her façade. But Mathew did not. He was in love, he said. Infatuated, enchanted, transfigured, forever dedicated. Drunk in love, and lust, and completely blind to the manipulative tactics of the girl he fell asleep holding each night. But the years had passed, and after hitting rock bottom and leaving her, all the therapy sessions and disastrous online dating and drunken pizza and star wars marathons served him well, as he grew into a new and improved version of himself.

He was genuinely happy to see her with someone else – not because he thought she was happy or changed, for he had understood long before that Amy had no soul to change, only a gigantic ego to drown herself in further and further. He was happy because her being with someone else reminded him of how free of her he now was. Matthew did not feel the need to move houses or cities or countries any more, he did not look for her in crowded shops or loud cafés, he was able to watch her favourite movie without giving her fleeting image more than a moment’s notice. He had moved on, and moved over, and was happier than ever.

Their love story had had more thorns than roses, but all was well now – Matthew could see it for what it was and move forward with no remorse, en route to the next twirling girl in another bar at another time, but never forgetting his worth again. At least for that, he was grateful. So, as he opened his house door and kneeled on the floor petting his dog, he thanked Amy for the storm she had caused in his life and thanked himself for the strength that took to whisk the hurricane away and bring about his own breaking dawn.

Assemelha-se a ti, o oceano.

              Assemelha-se a ti, o oceano. Infinito e profundo. Agitado à superfície, calmo e misterioso nas profundezas. As tuas ondas de humor e afecto assombram-me de forma rítmica, num tique-taque constante de avanços e recuos, de cedências e condescendências. És incapaz de proferir palavras certas e finais, ou de me dar uma resposta directa que não evoque mais dúvidas do que as contidas na minha pergunta inicial. Conversar contigo é como jogar um jogo de tabuleiro em que eu sou o peão e tu o detentor das regras, sem que me seja concedido acesso às mesmas. Escapa-me o objectivo. Não costumo hesitar quando entro no oceano – mesmo quando a temperatura da água me convida a voltar ao areal, mergulho de cabeça sem pensar duas vezes. Acredito que tudo é mais fácil quando submergimos de uma vez. No entanto, sou incapaz de fazer o mesmo com o oceano que és tu. Dou por mim a lutar por manter o equilíbrio enquanto a tua maré me troca as voltas, me empurra e puxa simultaneamente, me envolve com uma espuma de indiferença seguida de uma onda de carinho e afecto. Preferia mergulhar e afogar-me, saber de uma vez por todas o que está no fundo, na concha do teu ser, do que continuar a flutuar no desconhecido. Mas encontro-me demasiado receosa e covarde para descobrir a verdade dos teus sentimentos, incapaz de arriscar destruir a fantasia que criei na minha mente. E assim continuo, agarrada a uma jangada que diminui a cada dia que passa, incapaz de afastar o sentimento de que não há forma de eu sair ilesa desta aventura, mas também impossibilitada de me afastar agora – sou como um marinheiro iludido pelo canto da sereia que se deixa arrastar contra as rochas afiadas até perder os sentidos. Sou talvez ainda pior, pois consigo sentir-me a ser arrastada e em vez de nadar contra a corrente deixo-me ir, mergulho-me na possibilidade, com a certeza de que os penhascos me vão trespassar o coração. Assemelha-se a ti, o oceano. Igualmente belo, fascinante e assustador. Assemelha-se a ti, o oceano.  

                               - Rita P. Magalhães (Julho 2019)
Julho de 2020 – Praia de Matosinhos