sobre junho.

junho 2021 – 25 anos, 3 livros lidos, 3 tatuagens novas.

OS LIVROS.

“E se fizéssemos uma tatuagem”, de Rafael Dionísio, foi uma compra precipitada na livraria do LxFactory, em Lisboa – apaixonei-me pela capa, pelo título, pelo formato. Tudo no livro gritou “compra-me”, e a descrição autobiográfica do autor na contra-capa (“Mas o que lhe interessa na vida é a amizade, os copos, o amor e escrever”) tomou a decisão por mim. Gosto imenso de descobrir livros e autores novos e aleatórios, e apesar de não ter adorado o livro como um todo estou muito feliz por o ter na minha coleção. Este livro de short stories passadas em Lisboa contém uma panóplia de contos povoados por personagens tão mundanas quanto especiais. É uma boa companhia para tardes de verão, e marcou bem o tom do meu mês (melancolia e tatuagens, como vão perceber).

“The Seven Husbands of Evelyn Hugo”, de Taylor Jenkins Reid, tem feito furor como um dos livros mais lidos e badalados dos últimos dois anos – e com razão. A premissa é simples, mas a execução é de uma beleza e perfeição tal que só me apetece spammar o Ministro da Educação com e-mails a sugerir que passe a ser leitura obrigatória. Evelyn Hugo, uma das maiores estrelas de cinema (fictícias) de todos os tempos decide, aos 70 anos e após uma vida de segredos e sete casamentos, contar finalmente toda a sua história. É impossível chegar ao fim sem estar convencido de que Evelyn Hugo tem de ter existido num universo paralelo qualquer. Um relato do que é o amor e a amizade, um testemunho ao que cada um de nós está disposto a fazer para conquistar o que deseja, um retrato de perda, doença, dor e da vida, povoado de personagens fortes, realistas, apaixonantes e diversas. Estou ansiosa por ler o resto da obra de Taylor Jenkins Reid, e algo me diz que este livro será relido muitas vezes.

“We have always been here – A Queer Muslim memoir”, de Samra Habib. Muçulmana Ahmadi, Mulher, Queer, nascida num Paquistão que nunca a aceitou como era, e do qual fugiu ainda em criança. Um dos melhores e mais importantes livros que li na vida. Sinto que tenho milhões de pensamentos a transmitir sobre o livro, e ao mesmo tempo sei que nenhum deles se compara ao texto em si. Deixo-vos apenas com algumas quotes e a recomendação exacerbada – leiam este livro.

For me, practicing Islam feeds my desire to understand the beauty and complexity of the universe and to treat everyone, regardless of their beliefs, with respect.

Being surrounded by great people isn’t a fluke. It’s almost like solving a math problem, finding variables, adding and subtracting to figure out a formula that works. Being surrounded by people who fuel you is intentional.

Azaad is a funny word in Urdu. In most instances, it means “freedom”. It’s also used liberally to slut-shame and put down a woman who shows any sign of autonomy or independence.

O ORGULHO.

pride 2021, com as minhas friends a sério Inês e Camille <3

Junho. o mês do Pride (que no Porto calha quase sempre em julho), uma Marcha diferente, mas tão válida e necessária como sempre. De máscaras, distanciados e com um percurso reduzido, gritámos pelos direitos que tardam e se diminuem e retraem. A marcha é um protesto e não uma festa, mas enche-me sempre o coração de um amor refletido em todas as cores do arco-íris, e este ano não foi excepção.

UMA MÚSICA.

UM PENSAMENTO.

Este foi um dos meses mais emocionalmente esgotantes e profissionalmente exigentes dos últimos anos. Ainda assim, esteve recheado de coisas boas, sempre trazidas por pessoas-luz que tornam os dias difíceis um bocadinho mais toleráveis. Olhando para trás, mais do que tudo, sinto-me grata (e lentamente a caminho da plenitude e aceitação). E porque sei que não agradeci nem agradeço o suficiente, o meu pensamento final do mês de junho é, pura e simplesmente, obrigada.

Lisboa2021: highlights de uma viagem aleatória.

Começar com uma confissão – até agora, o meu conhecimento de Lisboa resumia-se ao Vasco da Gama, ao Pavilhão Atlântico/Meo/Altice Arena, ao Coliseu, Estádio da Luz e às Universidades. Como tripeira de gema que sou, sempre fiz questão de assumir o papel caricaturesco de pessoa que acha que a capital está mal escolhida. Nos últimos anos as minhas visitas resumiram-se a concertos e congressos. Recentemente apercebi-me de que o meu quase-preconceito idiota só me levava a perder experiências, e tomei a decisão de passar uns dias sozinha a explorar a cidade. A oportunidade de tirar férias surgiu no passado mês de Maio e, tendo a meteorologia a meu favor, decidi aproveitar.

Como a minha viagem foi mais improvisada do que planeada, não me sinto no direito de construir nenhum roteiro ou guia para a cidade, mas gostei imenso dos dias que por lá passei e achei que valia a pena destacar algumas das highlights do que vi, vivi e comi, com a certeza de que ficou muita coisa por ver.

(disclaimer #1 – a maioria destas fotos foi tirada para enviar aos meus pais como prova de vida/felicidade ou para partilhar no instagram, não pretendo de todo ser influencer e não acho que representem a beleza dos sítios / aspecto da comida)

(disclaimer #2 – sim, li o mesmo livro em todas as refeições e adorei, recomendo mil, e irei escrever sobre ele em breve!)

PARA VISITAR

Mosteiro dos jerónimos

maio de 2021

De todos os monumentos “chave” que nos vêm à cabeça quando pensamos em Lisboa (Belém, Padrão dos Descobrimentos, etc), o que escolhi visitar foi o Mosteiro dos Jerónimos. Porquê? Porque é grátis ao Domingo para residentes em Portugal! Para além de ser muito perto dos outros marcos culturais e, por isso, acessível a quem quiser fazer bingo de edifícios históricos, está também em frente a um jardim/parque absolutamente lindo, ideal para uma pausa pós-visita. O mosteiro é imponente e bonito, e contém os túmulos de Alexandre Herculano e Fernando Pessoa. Foi uma visita super agradável e um ótimo arranque para os meus dias em Lisboa.

MAAT + Central

Gosto de museus – aproveito sempre as minhas viagens para visitar os museus que me atraírem mais. É verdade que é um turismo mais cultural e menos focado no sítio em si, museus como o MAAT poderiam estar em qualquer cidade, mas está ali, e decidi aproveitar. O próprio edifício, a vista e a envolvência é em si uma obra de arte, e mesmo que não entrem vale a pena passar perto. Mas gostei imenso das exposições, do staff e da organização do museu. A minha parte favorita foi uma exposição de “arte como terapia” no Central, interativa e emocionalmente exigente, no melhor sentido. Não querendo dar grandes spoilers, uma das atividades que fiz (Citileaks) consistia em escrevermos o nosso maior segredo num papel a colocar numa garrafa de vidro que deixávamos depois numa sala povoada de outras garrafas. Em troca, pude escolher aleatoriamente outra garrava e ler o maior segredo de outra pessoa. E as outras atividades são ainda melhores! (E a entrada para estudantes no MAAT + central são 6 euros, in-crí-vel).

LxFactory

Bem, acho que toda a gente conhece este sítio – não há muito a dizer. Uma espécie de galerias ao ar livre, micro-comunidade instagramable e com muito boa vibe, povoada de restaurantes, cafés, bares de cerveja artesanal, lojas de roupa sustentáveis e vintage, negócios locais, um estúdio de tatuagens e, a maior atração de todas, uma livraria incrivelmente linda. Foi precisamente esta livraria que motivou a minha visita, mas o resto é igualmente interessante. Fica um pouco fora de tudo o que me interessava ver, mas como o meu principal objetivo era passear e explorar não me custou nada a viagem propositada, e valeu totalmente a pena.

PARA COMER

Pedi recomendações de restaurantes e cafés a toda a gente que conhecia que podia ter opiniões para dar – e depois não fui a nenhum deles. Mas ficaram apontados! Preferi que as minhas refeições fossem tão freestyle como o resto, e acabei por escolher sítios com base em três critérios:
1. estava com fome
2. era perto de mim
3. tinha opções vegetarianas E Super Bock (já sou fã de Lisboa, mas de Sagres nunca hei de ser)
Simples, certo? Mas eficazes! Acabei por descobrir alguns sítios muito aleatórios de que gostei bastante.

Quase Café

Num dos dias em que acordei um bocadinho mais tarde não me apeteceu o pequeno-almoço de torrada e sumo e decidi procurar um brunch. O Quase Café ficava a 3 min a pé do meu alojamento e, motivada apenas pelo bom aspecto da comida nas poucas fotos que vi, decidi-me a experimentar. E fiquei deliciada! Primeiro, a quantidade de comida é absurda, mas fiquei com imensa energia para os passeios do dia e só senti necessidade de voltar a comer à hora do jantar. Adorei a decoração do espaço e a simpatia do staff, e passei um bom bocado a comer ao meu próprio ritmo enquanto (também) devorava o meu livro.

Insano Gelato e Pizza

Esta gelataria que também serve pizzas ficava na rua do meu airbnb, e todos os dias ao partir à aventura pensava “tenho mesmo de ir ali comer um gelado”. E foi lá que fiz a minha última refeição em lisboa – e que refeição que foi! Pedi uma pizza de quatro queijos que estava deliciosa, e à sobremesa comi um cone gigantesco de gelado de oreo e de manga. Mas, apesar de a comida ser genuinamente muito boa, o melhor deste jantar não foi a refeição, mas sim a companhia do dono do estabelecimento. Um senhor extremamente simpático e claramente apaixonado pelo que faz, daquelas pessoas tão genuínas e agradecidas por termos escolhido o seu restaurante que nos tratam como se fosse o maior favor do mundo. Não consigo descrever a ternura que foi a conversa que tivemos, mas fiquei mesmo feliz e a torcer por ele. É um restaurante aleatório num canto de uma rua, tapado por uma curva vertiginosa que provocou duas quedas durante a minha estadia, mas merece toda a visibilidade do mundo!

Museu da Cerveja

Estava eu na Praça do Comércio à espera de um autocarro que me levasse ao LxFactory quando me deu a fome e decidi almoçar. A praça tem restaurantes a toda a volta, mas sendo eu quem sou dirigi-me de imediato para aquele que tinha cerveja no nome. Com pratos vegetarianos, uma esplanada agradável, e os copos de cerveja mais interessantes e leves que já vi, o Museu da Cerveja não desiludiu. Gostei imenso da comida e, principalmente (como era suposto), da cerveja, e gostaria muito de lá voltar.

Restaurante do MAAT

Eu não sei se este restaurante tinha nome, mas está à esquerda da entrada do museu, tem uma vista incrível e opções de brunch e cafetaria mito agradáveis. Foi uma ótima e conveniente experiência e paragem, e contrariamente ao que achei a princípio não era mais caro do que o típico restaurante do género, apesar de pertencer ao museu. Pareceu-me legítimo visitar o local só mesmo pela comida, mas aliado à arte que o rodeia fica ainda mais atrativo.

PARA RELAXAR

MIRADOUROS E MAIS MIRADOUROS

maio 2021

Lisboa tem imeeeeensos miradouros – dois segundos no google maps rapidamente revelam isso. Tive a sorte de ficar (acidentalmente) alojada perto de um particularmente bonito, o Miradouro das Portas do Sol (na fotografia), que para além de uma vista incrível tem um café estilo kiosk muito agradável com boa comida. Na minha busca por um sítio similar às Virtudes no Porto ou ao Morro em Gaia acabei por ir a vários outros Miradouros, e destaco o de Santa Catarina (informalmente conhecido por Adamastor), principalmente pela vista e pela vibe dos grupos que por lá estavam. Infelizmente, senti falta de espaços verdes e com relva em quase todos os sítios, mas mesmo assim valem a visita pela vista e tranquilidade, e resultaram em boas tardes de leitura.

RODA BOTA FORA

Esta recomendação é mais pessoal e “de oportunidade” – gosto imenso dos Roda Bota Fora (e de stand up, espetáculos e cultura no geral), e quando me apercebi de que iriam atuar no Villaret durante a minha estadia em Lisboa não hesitei. No fundo, a moral da história é – a cultura é segura, faz bem à saúde e vale a pena em qualquer momento, cidade, ou viagem. Foi uma ideia impulsiva e espontânea que resultou num ótimo serão!

E assim foi! Em falta estão todas as livrarias que visitei e que constituíram a atração principal da viagem, mas merecem o seu próprio post – estou muito entusiasmada com todos os livros que contei e ansiosa para escrever sobre eles. Espero que esta viagem sirva de inspiração à Rita do futuro para escolher sítios aleatórios e explorar sem expectativas nem roteiro.

res·pi·rar

verbo intransitivo

1. Aspirar e expelir consecutivamente o ar por meio dos pulmões.
2. Viver.
3. Descansar, parar.
(…)

retirado de: priberam (consultado a 31 de maio de 2021)

Respirar é viver e viver é respirar – natural, espontâneo, não premeditado. Mas viver e respirar de forma espontânea e sem intenção acarreta os seus perigos. Num mundo que se quer célere, respiramos cada vez mais rápida e superficialmente, vivemos cada vez mais depressa e sem prestar atenção, paramos cada vez menos.

Sou uma pessoa acelerada. Normalmente declaro isto com orgulho, um sorriso confiante e um brilho nos olhos característico de quem está habituada a ter de defender o ritmo frenético a que se habituou a viver. Do que me lembro, fui sempre assim. Sempre dormi pouco e fiz muito, as atividades extra e intra curriculares acumulavam-se (e acumulam-se), nunca um só livro ocupa a minha mesinha de cabeceira, raramente faço apenas uma coisa de cada vez. E se por um lado gosto de ser assim, de ter uma vida cheia e dias completos, de me sentir cansada e cheia de vida quando (finalmente) me permito ir dormir, por outro percebo cada vez mais que não é um estilo de vida sustentável. E, por muito que tenha demorado a ter coragem de o admitir a mim mesma, a verdade é esta: estou cansada.

Ou estava, vá. Antes de tirar os dias de férias e de reorganização mental (e de vida) que me levaram a esta reflexão. No início deste mês apercebi-me de que estava a viver em piloto automático – não que os meus dias fossem todos iguais, longe disso, mas eram todos demasiado. Demasiado trabalho, tempo em redes sociais, conversas, emails, livros, podcasts, música, séries, youtube, aulas, trabalhos, cursos online, crochet, pintura, limpezas, passeios etc etc etc etc Na lista não entravam verbos como respirar, parar, pensar. Descansar. Mesmo o meu descanso tinha de ser produtivo – daí o crochet, a leitura, a pintura. Estar parada e sozinha com os meus pensamentos era tão assustador que a necessidade de arranjar estímulos constantes era automática, de tal forma que demorei a aperceber-me de que o estava a fazer.

Mas percebi. E parei. Tirei uma semana de férias do laboratório, marquei um airbnb em Lisboa com zero conhecimento da cidade, e obriguei-me a não preparar rigorosamente mais nada. Vá, fiz a mala. Mas foi só isso. As minhas viagens costumam ser planeadas quase ao minuto e envolver várias folhas de excel, páginas de notion e bullet journal, horas no google maps e no zomato e trip advisor(s) desta vida. Desta vez, nada disso aconteceu. O próprio bilhete de comboio foi comprado minutos antes de embarcar. E em boa verdade, volvida agora uma semana desta pequena aventura na capital, admito – foi o melhor que podia ter feito.

Não serve este post para descrever a minha viagem (embora provavelmente outros textos terão essa finalidade), mas para reafirmar o que dela resultou – parei, respirei e vivi. Não querendo dar uma de eat pray love da loja dos trezentos que se encontrou espiritualmente em Alfama em vez de na Índia, a verdade é que o local foi o menos relevante de tudo isto. O importante foi, por mais clichê e convencido que possa parecer, eu. Eu, sozinha. Eu, sem nada para fazer, sem tarefas ou compromissos, a ignorar emails e notificações de tudo e mais alguma coisa, mas sem a culpa intrínseca do dia-a-dia. Eu a apanhar sol num miradouro aleatório sem hora de me ir embora, a ter conversas profundas com o segurança do metro da Baixa ou o dono da gelataria da Rua das Escolas Gerais, a entrar em todos os Alfarrabistas e lojas de Discos e Velharias que me apareciam à frente, a comer e beber quando e como me apetecesse, a ir dormir sem pôr despertador e mesmo assim acordar cedo e com energia. Eu a pensar, a refletir, a tomar decisões, ou simplesmente a não fazer nada.

Respirar. Só me apercebi que tinha o ar encravado e acumulado quando finalmente me deixei expirar e inspirar sem expectativa nem agenda. Não sei se é possível trazer a sensação de liberdade e tranquilidade que me tem acompanhado desde o meu regresso para o meu dia-a-dia, mas sei que vale a pena tentar. Vou continuar a ser acelerada – não duvido disso. Mas talvez haja uma forma de acelerar sem entrar em velocidade terminal, de combater a lei da inércia e alterar o movimento retilíneo e inconsequente motivado pela vida., de parar e respirar e viver.

Inspiro e expiro profundamente, uma, duas, três vezes, releio este texto e desapego-me da sensação de que é demasiado pessoal e caótico para existir no mundo real e clico em Publicar. Retomo as minhas tarefas de trabalho do dia, preparo a reunião que começa daqui a 13 minutos. Respiro. Paro. Vivo.

waiting room.

Trigger Warning: Mental Health / Anxiety / Panic

Waiting rooms are some of the most stressful places on earth for anxious people. The more modern and automatized they become, the worst it gets. You’d think it would be the other way around – not having to talk to other people would be less anxiety-inducing. But that’s only the case if every automated thing goes smoothly, and that rarely happens. If there is a delay, if the clock is stretching beyond the predicted and expected timeline and the automatic panel doesn’t automatically shout the number automatically printed on your automatically issued ticket, anxiety arises.

Is the doctor running late? Did she lose track of time in a consult, or get lost on the highway and ended up drifting down a cliff? Did I get the wrong time or day or month? Or maybe I am on the wrong floor, perhaps I should have gone up to floor number 3 even though the paper the machine spit out says floor number 4? Maybe they canceled the appointment and I missed it. So I check my email, one, two, three times, the inbox, and the junk and spam folders, just in case. Maybe they texted it to me but the text never came through. They could have sent it in those 23 seconds it took me to go through a tunnel and the message got lost in the place where messages go to get lost.

When it’s an hour after the appointment scheduled time I start to worry I got the wrong hospital altogether, 10 more minutes and I’ll start questioning if I’m even in the right city or country or planet at all. By this point, my upper lip starts to get sweaty and my throat is dry. My hands start shaking and my vision is blurry and my glasses are foggy. I take out my earbuds to check whether I’m breathing too loud externally or if it’s only inside my head. I feel the hyperventilation striving to break through my lungs, the anxiety gathering in bumbles of panic that just need to find a way out of me.

I am suddenly too exhausted to keep overthinking.

And yet, somehow, overthinking is all I can do.

Eventually, I accept my fate. I accept that I am in the wrong universe and there was never any appointment at all and I’ll just turn to dust while sitting in this chair.

Perhaps by now, you’re wondering why I’ve spent a whole hour panicking and writing this and pushing myself in and out of an anxiety attack instead of just asking a real non-automated person for help. I don’t wonder anymore. Anxiety is a gloomy monster that I’ve become too accustomed to, and very little amount of reassuring can turn a situation like this one around. But worry not, I go to therapy. That’s precisely where I was when this episode and related attacked took place. And I have my coping mechanisms, and most days are okay and good and I’m happy with a metaphorical sun shining inside my brain. But anxiety doesn’t ever fully go away. Writing myself out of an attack is one of my favorite strategies, and this time I decided to share my experience. I am aware that this is an ever-present feeling in the lives of many people, and I don’t expect my experience will change or remotely affect anyone else’s. However, putting this out there helps, because now it’s not just inside my head, it is a shared experience.

amor – um poema e uma música.

Tinha outro post inteiramente diferente preparado para hoje mas o desafio que Magda Cruz do Ponto Final, Parágrafo, um dos meus podcasts preferidos, lançou no instagram inspirou-me a dedicar algumas linhas a este dia tão moderno e clássico ao mesmo tempo.

Hoje é dia 14 de fevereiro, dia de são Valentim, ou dia dos namorados – o dia do amor. A Magda desafiou os ouvintes do podcast a sugerir os seus poemas ou textos de amor favoritos. A minha mente foi de imediato para “A Química”, de José Saramago, poema que mereceu já uma partilha exclusiva no blog. Sublimemos, amor. Uma declaração romântica alusiva à sublimação, a passagem da matéria do estado sólido para o estado gasoso, qualquer coisa como ascender a uma nova dimensão em que existem apenas duas pessoas – Saramago e o seu amor, com quem sublima.

Nesse sentido, a Magda introduziu-me ao “Poema de amor” do Pedro Mexia, que passo a transcrever:

Alprazolam, domipramina, noradrenalina,

monoamina, seretonina, fluoxetina.

Pedro Mexia

A Alprazolam e a Domipramina são dois fármacos tipicamente usados para tratar distúrbios e sintomas de pânico e ansiedade, e para mim representam duas realidades opostas mas igualmente válidas do que o amor faz ao ser humano. Ao mesmo tempo que nos causa alguma ansiedade (aquele medo de ser ou não correspondido, as borboletas no estômago de nervosismo perante a infinidade de cenários que se apresentam quando abrimos o nosso coração a alguém), pode também ser a cura para as ansiedades do dia-a-dia. Partilhar as nossas inquietudes e derrotas com alguém que nos ama e quer o nosso bem é, por vezes, o melhor fármaco possível para minimizar estes sentimentos negativos, ou pelo menos para os tolerar melhor.

A Noradrenalina e a Serotonina são monoaminas, neurotransmissores relacionados com o humor, a ansiedade, o nosso estado de espírito, o sono, a alimentação etc em resumo – afectam tudo. Conhecida popularmente como hormona da felicidade, a serotonina é frequentemente responsável por distúrbios depressivos quando algo falha na sua produção ou nos receptores naturais que possuímos. E é precisamente nesses casos que entra em acção a Fluoxetina, um fármaco antidepressivo. Também aqui entendo a dualidade do que é o amor – ao mesmo tempo que leva à produção de hormonas e neurotransmissores responsáveis pela felicidade, é também causador de desregulação de todo o nosso organismo. O amor é capaz de tirar sono, afectar o apetite ou induzir-nos a passar uma tarde na cozinha a fazer brownies ou panquecas para alguém de quem gostamos; tira-nos o ar ao mesmo tempo que nos faz respirar melhor. Quando corre bem, exacerba todos os bons sentimentos e felicidades que experienciamos. Quando corre mal e o coração se parte ou magoa é capaz de nos enterrar em sentimentos depressivos comparáveis aos causados pela ausência da tão já referida hormona da felicidade.

O amor não pode ser (nem deve) ser reduzido a reações químicas ou neuronais – é um mistério superior à capacidade explanatória da ciência, e por mim pode continuar assim.

Agora num tom menos poético e mais cru, tal como o amor frequentemente também é, queria partilhar a música “Qualquer Coisa” dos Time for T, que tem uma vibe absolutamente tranquila e boa onda. Escrita durante esta estranha pandemia que vivemos, transmite muitas das coisas simples que tomávamos por garantidas e de que agora sentimos falta, como “Aquelas tardes de cerveja tornam-se em noites de macieira” ou ainda “Aquele cinema no estendal, o nosso tímido carnaval“. Uma ode ao dia-a-dia que este vírus nos roubou e que também é amor, e às coisas mundanas que mal podemos esperar por rever e re-reclamar como nossas.

Qualquer coisa no vinho, qualquer coisa no ar
Qualquer coisa no mel, qualquer coisa no marAquele cheirinho eucalipto, aquela mordida à la mosquito
Aquele drogado educado, aquele rico malcriado
Aqueles turistas perdidos bebem vinho verde felizes
Aqueles artistas servem à mesa, até os forretas deixam gorjetaOh amanhã é mais um dia que vai tornar-se ontem
Oh amanhã é mais um dia que vai tornar-se ontem
Qualquer coisa no vinho, qualquer coisa no ar
Qualquer coisa no mel, qualquer coisa no marAquele pênalti anulado, aquele carro mal estacionado
O portal das finanças, um labirinto sem esperanças
Aquele café da manhã, aquela vizinha de sutiã
Aquelas tardes de cerveja tornam-se em noites de macieiraOh amanhã é mais um dia que vai tornar-se ontem
Oh amanhã é mais um dia que vai tornar-se ontem
Qualquer coisa no vinho, qualquer coisa no ar
Qualquer coisa no mel, qualquer coisa no marAquela nuvem de perfume das meninas em cardume
Que mergulham no cais sodré, sem nunca molhar os pés
Aquele cinema no estendal, o nosso tímido carnaval
Aquele cheiro a sardinhas e haxixe, os santos devem estar felizesOh amanhã é mais um dia que vai tornar-se ontem
Oh amanhã é mais um dia que vai tornar-se ontem
Qualquer coisa no vinho, qualquer coisa no ar
Qualquer coisa no mel, qualquer coisa no marAquela caça do gambuzino, segue-me que eu sei o caminho
Muitos anos a virar frangos, toma lá morangos
Aquele amor em sprint, aquela pilula do dia seguinteAquele cheirinho de carvão, torna o medroso em rei leão
Os artistas de hoje em dia sobrevivem na pandemia
Toma lá pra te entreteres é só putas e recibos verdes

sinal de gps perdido

sou terrível a seguir o gps – confundo a esquerda com a direita, o norte com o sul, as saídas e os metros e os kilómetros. não sei nomes de ruas nem auto-estradas nem nacionais nem IPs nem vias equiparadas. saio de casa 15 minutos antes do suposto para prevenir as vezes que me vou perder e o tempo que demoro a estacionar, e se fico sem bateria o melhor é esquecerem que tínhamos planos porque o mais provável é eu nunca chegar ao destino. ou ir parar a lisboa a tentar.

é comum as pessoas assumirem que vou (ou devia) saber o caminho só porque já o fiz duas, três ou dez vezes, quando a verdade é que tenho todas as moradas importantes e dos sítios que mais frequento guardadas como favoritos na aplicação do gps.

houve uma altura em que isto me incomodava – sentia-me inútil, infantil e dependente. três coisas que são, até certo ponto, verdade. mas no fundo não é só no carro ou a seguir o gps que me perco, sou despassarada e aérea por natureza e cada vez vivo melhor com isso.

já me perdi a andar a pé, já apanhei duas vezes o comboio errado no mesmo dia, já fui ter à fnac quando era suposto ter ido ter à “fac” (leia-se, faculdade). engano-me frequentemente no lado do metro ou direção do autocarro (principalmente se for circular). durante o meu Erasmus fiz mais explorações acidentais da cidade do que propositadas, conheci pessoas e lojas e ruas que nunca consegui rever por não me lembrar do caminho que me tinha levado lá.

tenho sempre a cabeça na lua – tropeço uma média de dez vezes por dia, vou contra portas e esquinas e armários e tudo e mais alguma coisa, esqueço-me de esperar pelo verde para peões e arrisco ser atropelada, choco com postes e árvores e caio em escadas e rampas, ruas lisas e em paralelo. e nem sequer uso saltos altos.

comecei este post com a intenção de estabelecer um paralelismo entre o gps e os sinais que as outras pessoas e o mundo à minha volta no geral me dão, e a minha falta de capacidade frequente para interpretar ambos corretamente. às vezes penso esquerda e viro à direita (mas só na estrada); às vezes acho que alguém quer o meu bem e uns meses depois descubro que não. gostava que existisse um gps para relações e para a humanidade, algo que ajudasse nas decisões do dia a dia – será que vale a pena investir nesta amizade ? será que compensa ir a este encontro / aceitar esta proposta / escolher este tema de dissertação / assinar este contrato /alugar esta casa / confiar nesta pessoa etc etc etc

algo que previsse com alguma antecedência o trânsito e os obstáculos que cada caminho possível acarreta e representa e calculasse o percurso mais rápido e sem portagens ou operações STOP. um gps de emoções e de decisões.

mas depois de tudo o que revelei eleva-se uma pergunta mais do que evidente – se este gps existisse, será que seria capaz de o seguir sem me perder? sou despassarada na estrada e por vezes na vida, mas cada vez acho mais que acabo sempre por chegar onde devia – mesmo que depois da hora combinada. e nem tudo é mau. perco frequentemente o sinal do gps, mas encontro sempre algo diferente e inesperado (nem que seja uma rua sem saída), e acumulo histórias e aventuras que valem bem mais do que os minutos perdidos em filas de trânsito evitáveis. e estou genuinamente okay com isso.

Hurricane Amy

              “I never thought I would be happy to see you with somebody new”, he says, almost in an inaudible whisper. She smiles, a shadow of the bitterness their last encounter left in her still present in the air. Around them, the concert went on, and they became enveloped by the foggy clouds of cigarette smoke mixed with that being produced by the old machine, glued to the stage. The bright pink and purple lights shone feverishly around them, transfiguring their expressions as their eyes were fixed on each other’s gazes. Amy was somewhat aware of her boyfriend standing 5 meters away from them, at the frontline, too into the music blasting through the speakers to realize she was not dancing right by his side. For once, she did not resent this. She noticed how the corners of Mathew’s eyes were more wrinkled than before, how his beard had darkened at the tips, and his forehead was now higher on his head, pushing his dirt blond curls back. Involuntarily, her hand rose to waist level, on her way to stroke his cheek, muscle memory of the tenderness and intimacy the two used to share. He smiled down at her, nervously. “Yeah”, she answers. “I never thought I’d be happy with somebody else”. Her words come out as a mere murmur, inaudible to anyone else but him, and only because he could read her lips like an open book. As the seconds tick further, Mathew nods, defeatedly.

              “Are you enjoying the concert?”, hands in his pockets, looking everywhere but at her face, wondering where his friends had run off to. Amy smiles at his familiar defense tactics. “Not really. But my boyfriend really likes this band.” “You were never one for live music. I remember”. She takes a step forward, her perfume mixing with the salty taste of the atmosphere that surrounds him. “What else do you remember?” she tempts, biting at her lower lip, red lipstick now staining her front teeth. He rolls his eyes at her impatiently, breathing out of his nose intently. “Stop, don’t do this. I’m happy for you, Amy. It’s good to see you, you look good. I hope everything is well. Have fun, okay?”. He raised his hands in front of his chest defensively, as her eyes became watery. Too tipsy to care about causing a scene and too high to notice Steve walking in her direction, she launched herself forward, rising to her tippy toes to stare Mathew in his eyes. “That’s rich. I don’t remember the last time you said so many words at your own free will. Guess after we broke up you finally learned how to communicate”.

              Mathew’s eyebrows drew together, and his nostrils dilated. Amy smiled, satisfied that she still had the power to get a reaction out of him so easily. Someone bumped against Matthew and he tipped forward, but quickly regained his balance, avoiding contact with the body in front of him. He became aware of a male persona standing behind Amy and eyeing him furiously. Her boyfriend. Many possible answers went through his brain, all of them ending with a well enunciated “Fuck you” and a storm off. However, he suddenly remembered how this whole conversation had started. He remembered how genuinely happy to see her moving on with someone else made him, how that validated that he had too. Amy’s temper and snarky remarks were scratching at poorly closed wounds of the violent fights that had adorned their feisty relationship. He was suddenly inundated with overwhelming certainty that he did not miss her, or want her back, at all. More than so – he had no desire to comply to her stinginess. There was no role for him to play in her mind games, anymore. And so, he smiled widely and sincerely, taking the girl in front of him by surprise. Fuming, Amy’s nails punctured her palms, as she fought for control over her emotions – but she had always been a tempestuous hurricane no one could quite prepare for. “It seems like it, I guess”, he finally answered, turning his back to her. “Take care, Amy”.

              “Fuck off!” she screamed at his back as he cheerfully walked away, finally laying eyes on his mates doing shots at the bar. He could hear sounds of a fight breaking out between a couple behind him and recognized the timber of Amy’s temper propagating in the small, crowded space. The band was not playing any more, and an obnoxious DJ replaced it.

              As he walked home, feeling the soft summer drizzle of the warm July night, Matthew reminisced on the night he had met Amy, at a club very similar to the one he had just left. She had been wearing a flowy white dress, contrasting against the dark tones of the rest of the bar’s population. Dancing completely out of beat as she inhaled tequila shots and floated around the arena, he had been taken by the dangerous feeling that she was different from the rest and that he, therefore, had to have her. She had that “I’m not like other girls” vibe about her, which made her irresistible to him. As he grew older, Matthew came to the realisation that there is nothing wrong with the “other girls”, and that those who make it a point to distance themselves from them and diminish their peers in other to compliment themselves are the girls one should be wary of. But on that night, many moons and lessons ago, he did not know this. And so he pursued her and let her play him for a fool, convinced that this cat and mouse game was the most raw and real romantic quest anyone could engage in.

As the weeks grew longer into the winter and his dates with Amy became more frequent, his friends tried to warn him – they saw right through her façade. But Mathew did not. He was in love, he said. Infatuated, enchanted, transfigured, forever dedicated. Drunk in love, and lust, and completely blind to the manipulative tactics of the girl he fell asleep holding each night. But the years had passed, and after hitting rock bottom and leaving her, all the therapy sessions and disastrous online dating and drunken pizza and star wars marathons served him well, as he grew into a new and improved version of himself.

He was genuinely happy to see her with someone else – not because he thought she was happy or changed, for he had understood long before that Amy had no soul to change, only a gigantic ego to drown herself in further and further. He was happy because her being with someone else reminded him of how free of her he now was. Matthew did not feel the need to move houses or cities or countries any more, he did not look for her in crowded shops or loud cafés, he was able to watch her favourite movie without giving her fleeting image more than a moment’s notice. He had moved on, and moved over, and was happier than ever.

Their love story had had more thorns than roses, but all was well now – Matthew could see it for what it was and move forward with no remorse, en route to the next twirling girl in another bar at another time, but never forgetting his worth again. At least for that, he was grateful. So, as he opened his house door and kneeled on the floor petting his dog, he thanked Amy for the storm she had caused in his life and thanked himself for the strength that took to whisk the hurricane away and bring about his own breaking dawn.

Assemelha-se a ti, o oceano.

              Assemelha-se a ti, o oceano. Infinito e profundo. Agitado à superfície, calmo e misterioso nas profundezas. As tuas ondas de humor e afecto assombram-me de forma rítmica, num tique-taque constante de avanços e recuos, de cedências e condescendências. És incapaz de proferir palavras certas e finais, ou de me dar uma resposta directa que não evoque mais dúvidas do que as contidas na minha pergunta inicial. Conversar contigo é como jogar um jogo de tabuleiro em que eu sou o peão e tu o detentor das regras, sem que me seja concedido acesso às mesmas. Escapa-me o objectivo. Não costumo hesitar quando entro no oceano – mesmo quando a temperatura da água me convida a voltar ao areal, mergulho de cabeça sem pensar duas vezes. Acredito que tudo é mais fácil quando submergimos de uma vez. No entanto, sou incapaz de fazer o mesmo com o oceano que és tu. Dou por mim a lutar por manter o equilíbrio enquanto a tua maré me troca as voltas, me empurra e puxa simultaneamente, me envolve com uma espuma de indiferença seguida de uma onda de carinho e afecto. Preferia mergulhar e afogar-me, saber de uma vez por todas o que está no fundo, na concha do teu ser, do que continuar a flutuar no desconhecido. Mas encontro-me demasiado receosa e covarde para descobrir a verdade dos teus sentimentos, incapaz de arriscar destruir a fantasia que criei na minha mente. E assim continuo, agarrada a uma jangada que diminui a cada dia que passa, incapaz de afastar o sentimento de que não há forma de eu sair ilesa desta aventura, mas também impossibilitada de me afastar agora – sou como um marinheiro iludido pelo canto da sereia que se deixa arrastar contra as rochas afiadas até perder os sentidos. Sou talvez ainda pior, pois consigo sentir-me a ser arrastada e em vez de nadar contra a corrente deixo-me ir, mergulho-me na possibilidade, com a certeza de que os penhascos me vão trespassar o coração. Assemelha-se a ti, o oceano. Igualmente belo, fascinante e assustador. Assemelha-se a ti, o oceano.  

                               - Rita P. Magalhães (Julho 2019)
Julho de 2020 – Praia de Matosinhos