Poema da Semana #4 – Anoitecer

Anoitecer (Elisabete Brito)

Lá fora, as notas de luz desmaiam lentamente
Para que o clarão do luar
E a fulgência das estrelas
Comecem a espraiar-se por esta imensidão de céu.

O matiz do vermelho e do laranja é mais vibrante
E o olhar mergulha no horizonte
Até que por fim sobrevenha o crepúsculo
Com o seu manto
E aqui e ali comecem a emergir
Um após outro
Artificiais pontos de luz.

-Elisabete Brito
in Antologia Para os Sentidos (2016)

All the Light We Cannot See

Lido: Janeiro 2020
Rating: 5/5

“All the Light We Cannot See”, de Anthony Doerr passa-se durante a segunda Guerra Mundial e foca-se em duas jovens personagens: Marie e Werner.

“All the Light We Cannot See” – Anthony Doerr

Marie é uma jovem francesa com uma história trágica, tendo ficado orfã de mãe muito cedo. Com apenas oito anos, um problema de saúde leva-a a perder a visão. O seu pai, chaveiro do Museu de História Natural da cidade, faz tudo o que pode para ajudar Marie a adaptar-se à sua nova realidade, preparando-a para viver no mundo de forma independente.

In a corner of the city, inside a tall, narrow house at Number 4 rue Vauborel, on the sixth and highest floor, a sightless sixteen year old named Marie-Laure LeBlanc kneels over a low table covered entirely with a model.

Werner é um jovem órfão alemão que cresceu num orfanato com a irmã. Muito astuto e inteligente desde criança, encontra um rádio estragado que consegue reparar, iniciando assim a sua “carreira” improvisada e mecânico de rádios da cidade. As suas capacidades chamam a atenção das autoridades que o recrutam para estudar num colégio privado destinado a formar a juventude Hitleriana, com o objetivo de formar soldados para a guerra.

Five streets to the north, a white-haired eighteen-year-old German private named Werner Pfenning wakes to a faint staccato hum.

As nossas personagens surgem em lados opostos da História – Marie vê-se obrigada a abandonar a cidade em que vive quando os alemães começam a bombardeá-la, e Werner faz parte das forças militares que invadem França e lutam pelo exército germânico.

History is whatever the victors say it is. That’s the lesson. whoever wins, that’s who decides the history.

Construída com analepses e prolepses temporais e viagens no espaço, esta história apresenta diversas personagens secundárias e acessórias que contribuem para a sua misticidade. A narrativa de Anthony Doerr é fluída e extremamente bem construída, e cada frase deixa-nos com vontade de ler a frase seguinte.

The sea seems big enough to contain everything anyone could ever feel.

Eu adorei este livro. Depois de ter lido “The Book Thief” há uns anos, receei nunca mais encontrar um livro da segunda guerra mundial que me fizesse sentir da mesma forma – até ler “All the Light We Cannot See”. O retrato de guerra é feito de forma quase dissimulada, já que nenhuma das nossas personagens está em contacto directo com as figuras “mais relevantes” nem tem um papel activo no conflito, o que nos permite ter uma ideia de como a guerra é vivida pelas populações e pessoas comuns.

Senti frequentemente que este era um livro antiguerra: tal nunca nos é dito diretamente, mas a forma como o conflito é descrito, e as reflexões e vivências que as nossas personagens sofrem, levam-nos a esquecer que país é que está a “ganhar” ou a “perder” ou quem é que tem a “razão”. Chegamos à inevitável conclusão de que ninguém ganha numa guerra e de que nada justifica as atrocidades e violações dos Direitos Humanos cometidas.

Everyone remembers the last war, and no one is mad enough to go through that again.

Não quero revelar demasiado do enredo – acho que o livro merece ser mantido em segredo, e que cada leitor tem direito à fantástica viagem que é a sua leitura. Fica o aviso: é um livro para chorar muito, mas também rir, refletir e, acima de tudo, entreter. Entrou automaticamente para a minha lista de livros favoritos do ano (apesar de ter sido apenas o segundo que li!), e talvez até da vida toda.

Science is made up of mistakes, but they are mistakes which are useful to make, because they lead little by little to the truth.

O livro tem também bastantes cientistas e engenheiros, cuja paixão pelo que fazem é descrita de uma forma deliciosa. Como bioquímica, encontrei várias passagens que me relembraram o porquê de gostar do que faço, algo que contribuiu para gostar ainda mais da história, das personagens e, consequentemente, do autor.

Recomendo de forma generalizada esta obra, independentemente de idade ou nível de interesse por história ou temas de guerra do leitor, acredito que este livro tem qualquer coisa para toda a gente.

Dia Mundial da Poesia

Hoje celebra-se o dia mundial da poesia. Como tal, decidi partilhar alguns dos meus livros de poesia favoritos escritos por autores portugueses. Sempre gostei muito de ler poesia. Gosto de a ler em voz alta, repetir estrofes e frases vez após vez, até sentir que percebi o que queriam dizer. Ás vezes, confesso, sou obrigada a desistir e seguir em frente frustrada – parece que o sentido das palavras ou frases me escapa. Ainda assim, muitos defendem que a poesia é para ser sentida e não entendida, pelo que continuo a ler com gosto.

Muitos dos meus poetas favoritos são extremamente conhecidos e de renome, o que é normal – os seus livros povoam as estantes dos meus pais, e o gosto pela sua obra foi-me transmitido por eles e por provessores de Português ao longo do tempo. Ainda assim, há alguns “poetas da nova onda”, se é que posso dizer isto, de que gosto bastante. Destaco Amadeu Liberto Fraga e Cláudia R. Sampaio. Colecciono as obras destes dois autores desde que os descobri, e gosto cada vez mais do seu trabalho.

Sempre que há uma Feira do Livro ou encontro um alfarrabista, gosto de comprar livros de poesia “desconhecidos”, baratos e, tipicalmente, mal tratados. Acabo sempre por descobrir autores e poemas interessantes que nunca teria descoberto numa livraria comum ou online. Talvez um dia faça um post sobre eles!

Mas, por agora e sem mais demoras, segue a lista dos meus poetas portugueses favoritos:

  • Alexandre O’Neil
  • Florbela Espanca
  • Eugénio de Andrade
  • Sophia de Mello Breyner Andresen
  • Manuel António Pina
  • Elisabete Brito
  • Cláudia R. Sampaio
  • António Pinheiro
  • Amadeu Liberto Fraga
  • Fernando Pessoa

Recomendo que explorem todos estes autores, se ainda não os conhecerem! Nos mais estabelecidos ou conhecidos costumo começar por antologias poéticas. São normalmente uma coleção extensa e completa das principais obras que definem os autores.

Boas leituras.

O início – Nas Minhas Pantufas

Eu sempre disse que queria criar um blog – era uma resolução constante na minha lista de ano novo, ano após ano. Mas nunca o fiz, e todos os anos surgiam novas razões para justificar o porquê de não o fazer. Recentemente apercebi-me de que as minhas razões eram simplesmente desculpas. E agora, com quase 24 anos e no início da minha carreira profissional pós-mestrado, senti que já chegava de pensar que “um dia” iria criar um blogue. Decidi que hoje era o dia.

Como sempre, precipitei-me e falei antes de fazer, contei a todos os meus amigos do blogue ainda antes de haver um. E descobri (ou confirmei) que tenho a sorte de ter amigos incríveis, alguns dos quais são responsáveis pelo FCiências (e lendas da FCUP), que me sugeriram alojar o blogue aqui. O facto de terem acreditado em mim deu-me ainda mais motivação, e é provavelmente ao seu entusiasmo que devo a existência deste post.

Surgiu então a questão do nome. Depois de muitos brainstormings e de ideias terríveis, surgiu a ideia de “Nas Pantufas da Rita” (Crédito: Juliana Rocha e Henrique Fernandes), pois vários dos temas que vou tratar aqui são coisas que faço e vejo “nas minhas pantufas”. E, assim, quem visitar este blogue pode ter uma pequena visão do que é viver… “nas minhas pantufas”. Sim, é uma metáfora algo cheesy, mas eu gosto.

E pronto, assim surgiu o “Nas Pantufas da Rita”. Bem vindos! Aqui irei falar de livros, filmes, séries, restaurantes e comida no geral, viagens, poemas etc, para além de partilhar pedaços da minha própria mente através de textos de ficção ou opinião. Espero que gostem. Mas, acima de tudo, espero que eu goste.