res·pi·rar

verbo intransitivo

1. Aspirar e expelir consecutivamente o ar por meio dos pulmões.
2. Viver.
3. Descansar, parar.
(…)

retirado de: priberam (consultado a 31 de maio de 2021)

Respirar é viver e viver é respirar – natural, espontâneo, não premeditado. Mas viver e respirar de forma espontânea e sem intenção acarreta os seus perigos. Num mundo que se quer célere, respiramos cada vez mais rápida e superficialmente, vivemos cada vez mais depressa e sem prestar atenção, paramos cada vez menos.

Sou uma pessoa acelerada. Normalmente declaro isto com orgulho, um sorriso confiante e um brilho nos olhos característico de quem está habituada a ter de defender o ritmo frenético a que se habituou a viver. Do que me lembro, fui sempre assim. Sempre dormi pouco e fiz muito, as atividades extra e intra curriculares acumulavam-se (e acumulam-se), nunca um só livro ocupa a minha mesinha de cabeceira, raramente faço apenas uma coisa de cada vez. E se por um lado gosto de ser assim, de ter uma vida cheia e dias completos, de me sentir cansada e cheia de vida quando (finalmente) me permito ir dormir, por outro percebo cada vez mais que não é um estilo de vida sustentável. E, por muito que tenha demorado a ter coragem de o admitir a mim mesma, a verdade é esta: estou cansada.

Ou estava, vá. Antes de tirar os dias de férias e de reorganização mental (e de vida) que me levaram a esta reflexão. No início deste mês apercebi-me de que estava a viver em piloto automático – não que os meus dias fossem todos iguais, longe disso, mas eram todos demasiado. Demasiado trabalho, tempo em redes sociais, conversas, emails, livros, podcasts, música, séries, youtube, aulas, trabalhos, cursos online, crochet, pintura, limpezas, passeios etc etc etc etc Na lista não entravam verbos como respirar, parar, pensar. Descansar. Mesmo o meu descanso tinha de ser produtivo – daí o crochet, a leitura, a pintura. Estar parada e sozinha com os meus pensamentos era tão assustador que a necessidade de arranjar estímulos constantes era automática, de tal forma que demorei a aperceber-me de que o estava a fazer.

Mas percebi. E parei. Tirei uma semana de férias do laboratório, marquei um airbnb em Lisboa com zero conhecimento da cidade, e obriguei-me a não preparar rigorosamente mais nada. Vá, fiz a mala. Mas foi só isso. As minhas viagens costumam ser planeadas quase ao minuto e envolver várias folhas de excel, páginas de notion e bullet journal, horas no google maps e no zomato e trip advisor(s) desta vida. Desta vez, nada disso aconteceu. O próprio bilhete de comboio foi comprado minutos antes de embarcar. E em boa verdade, volvida agora uma semana desta pequena aventura na capital, admito – foi o melhor que podia ter feito.

Não serve este post para descrever a minha viagem (embora provavelmente outros textos terão essa finalidade), mas para reafirmar o que dela resultou – parei, respirei e vivi. Não querendo dar uma de eat pray love da loja dos trezentos que se encontrou espiritualmente em Alfama em vez de na Índia, a verdade é que o local foi o menos relevante de tudo isto. O importante foi, por mais clichê e convencido que possa parecer, eu. Eu, sozinha. Eu, sem nada para fazer, sem tarefas ou compromissos, a ignorar emails e notificações de tudo e mais alguma coisa, mas sem a culpa intrínseca do dia-a-dia. Eu a apanhar sol num miradouro aleatório sem hora de me ir embora, a ter conversas profundas com o segurança do metro da Baixa ou o dono da gelataria da Rua das Escolas Gerais, a entrar em todos os Alfarrabistas e lojas de Discos e Velharias que me apareciam à frente, a comer e beber quando e como me apetecesse, a ir dormir sem pôr despertador e mesmo assim acordar cedo e com energia. Eu a pensar, a refletir, a tomar decisões, ou simplesmente a não fazer nada.

Respirar. Só me apercebi que tinha o ar encravado e acumulado quando finalmente me deixei expirar e inspirar sem expectativa nem agenda. Não sei se é possível trazer a sensação de liberdade e tranquilidade que me tem acompanhado desde o meu regresso para o meu dia-a-dia, mas sei que vale a pena tentar. Vou continuar a ser acelerada – não duvido disso. Mas talvez haja uma forma de acelerar sem entrar em velocidade terminal, de combater a lei da inércia e alterar o movimento retilíneo e inconsequente motivado pela vida., de parar e respirar e viver.

Inspiro e expiro profundamente, uma, duas, três vezes, releio este texto e desapego-me da sensação de que é demasiado pessoal e caótico para existir no mundo real e clico em Publicar. Retomo as minhas tarefas de trabalho do dia, preparo a reunião que começa daqui a 13 minutos. Respiro. Paro. Vivo.

Um comentário em “res·pi·rar”

  1. Em linguagem popular e com aquele tom decidido que “os tripeiros” tão bem usam: “mais nada, siga!”.

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